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Não é fácil explicar como uma pessoa inteligente, perfeitamente normal
abandona sua vida e se deixa chegar aos quase 300 quilos. Hoje eu vejo
com olhos totalmente diferentes a obesidade,
mas mesmo assim não tenho certeza do que me levou a aquela situação
desesperadora.
Eu já nasci grandinho, pesando quase 5 quilos e medindo 51 cm. Hoje em
dia não é tão grande assim, mas há 35 anos era acima da média. Naquela
época o padrão de beleza para as crianças era: quando mais
dobrinhas melhor, e eu não decepcionava. Portanto, havia um incentivo,
até um apelo, para que as crianças fossem mais gordinhas, como se isso
fosse sinal de saúde e sinônimo de beleza. Eu não culpo ninguém, mas
pesquisas atuais já provaram que crianças obesas tem mais chance de se
tornarem adultos obesos. É claro que isso não é uma regra, mas eu não
fui uma exceção. Portanto, o fato de eu ser gordinho nunca me tornou
anormal, ao contrário, me tornava um símbolo de beleza entre as outras
crianças. Fui crescendo e os problemas foram aparecendo. Brincadeiras,
apelidos, gozações. Aos 10 anos eu já não era mais o "Bebe Johnson".
Não participava das brincadeiras com as outras crianças, e excluído do
futebol e de outros jogos, me restava assistir televisão e comer
pipoca. Ao 11 anos eu já chamava a atenção e na tentativa de me fazer
mexer para gastar um pouco de calorias meus pais tentaram de tudo:
Judô, Taekwdo, Natação entre outras atividade físicas... mas ao invés
de emagrecer eu engordava. Numa última e desesperada tentativa, até no
Grupo de Escoteiros eu ingressei. Não adiantou nada como regime, mas
tenho boas recordações dessa época. A
adolescência
foi chegando e com ela os complexos. Acho que é nessa fase que todo
gordinho acha que tem que se tornar humorista, afinal, temos que ser
queridos por alguma qualidade, haja vista que o quesito "corpinho
perfeito" nos exclui em muito. Aos 14 anos fiz meu primeiro regime.
Minha experiência com regimes me habilita a falar a respeito disso com
uma invejável desenvoltura. Aos 14 anos tive meu primeiro contato com
as famosas bolinhas de "fenpreporex, diazepan, bromazepan, T3, T4,
etc". Nos 3 primeiros meses do tratamento eu dormia praticamente o dia
todo. Depois do primeiro retorno ao médico, com os devidos ajustes na
fórmula (mágica???), eu passava acordado vários dias seguidos. Minha
família percebeu que apesar de mais magro, aquilo não estava me
fazendo muito bem. Parei de tomar o remédio e em pouco tempo recuperei
todo o peso emagrecido e um pouco mais.
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