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Ana Claudia Basto Bertolazi

Idade: 32 anos
Brasília – DF

Data da Cirurgia
08/12/2003

Médico:
Dr. Luis Fernando Córdova



Capella sem Anel
VÍDEO

Peso anterior:  106 KG
Peso atual: 55 KG
Altura: 1,58 m

anabertolazi@exgordo.com.br

DEPOIMENTO

Lembro-me bem do dia em que resolvi que buscar auxílio médico para a minha obesidade. Estava no auge de meus 106 quilos e já encontrava uma certa dificuldade locomotora entre outras. Dormia pouco. Estar deitada me dava dor nas costas. Ficava pouco em pé, meus joelhos não agüentavam muito o peso. Passava a maior parte do tempo sentada. Mas comecemos pelo início...

Nasci magrinha e cumprida. Sofri com asma durante um bom período e por esta razão não ganhava muito peso. O tempo foi passando e me curei da asma. Lá pelos 5 anos, continuava magra, mas já tinha uma barriguinha considerável, mas nada que me deixasse a margem da vida.

Quando tinha uns sete anos já estava mais gordinha e a coisa começou a pegar. Os apelidos começaram a surgir e a cobrança iniciou-se. Certo dia – me lembro como se fosse hoje – estava sentada na cadeira de balanço de meu pai em frente à TV e vi uma propaganda de chips. Chorei porque não podia comer aquela coisa deliciosa porque estava gorda e tinha que fazer dieta. 

Para a adolescência foi um pulo. Mudamos de país e, embora na Europa a pressão fosse menor, vivia me policiando. Nada exagerado porque a gente se mexia muito. Comíamos na mesma proporção que queimávamos calorias. Meu peso estava estabilizado. Sempre fui muito moleca e meu desenvolvimento, creio eu, foi muito normal. Fui criança na hora de ser criança, adolescente na hora de ser adolescente, mas sempre muito moleca.

Depois de morar quatro anos na Suíça mudamos para Berlim. Aí minha vida começou a mudar. Saímos do meio do mato para uma metrópole cercada por um muro e cheia de gente estranha. Deixamos uma casinha aconchegante a beira de um córrego para um apartamento cheio de neurose no centro de Berlim. Odiei a Alemanha. Odiava a língua, o povo, o cheio, o ambiente, a escola, enfim, odiava tudo naquele país. Vivia enclausurada no meu quarto, assistindo a MTV e comendo. Comia tanto que passava mal. Em matéria de guloseimas, os alemães são imbatíveis, era porcaria para todo o canto. Escondia tudo embaixo da cama para minha mãe não ver. Tomava coca-cola no gargalo e comia pacotes e mais pacotes de pizza de micro-ondas. O resultado foi óbvio, engordei horrores. O tempo foi passando e meu ódio pela aquela cidade foi diminuindo, acabei arrumando bons amigos e até comecei a gostar. Já era tempo de voltar para o Brasil.

Geralmente a gordura gera insegurança e eu era mais do que insegura. Gostava dos caras que não se interessavam por mim e o culto ao corpo no Brasil era algo que me impressionava. Até então eu era longe de ser obesa, mas estava sempre acima do peso ideal. Comecei a freqüentar academias de ginástica para tentar compensar o consumo de comida, mas aquilo me deixava mais deprimida do que ajudava. Gordo tem complexo de inferioridade e eu sempre achava que os instrutores não me davam a devida atenção. “Ande tanto tempo na esteira, passe para a bicicleta, pegue esse tanto de peso e pronto”. Viravam as costas e iam conversar com a atleta sarada. Eu sempre me achei engraçada e boa-praça, mas naquele então eu estava em tremenda desvantagem em relação às outras meninas: não tinha exterior. O tempo foi passando... e um belo dia finalmente alguém me notou. Comecei a namorar em dezembro de 92 com um rapaz um pouco mais novo. Aos poucos percebi que ele sofria de um mal tremendo: era ciumento aos extremos. Isso fez com que nos isolássemos. Me isolei não somente dos lugares que costumava freqüentar como também dos amigos que costumava ter. Via o mundo girar e não podia participar. Ao mesmo tempo não podia deixar aquele “único” homem que me dava valor, pelo menos era o que eu achava. A coisa começou a pegar quando percebi que quanto mais eu engordava e ficava feia e reclusa, mais ele ficava agradado. Se eu me depilava, ou não, se eu fizesse as unhas ou não, aquilo não importava, o que contava era viver aquela vidinha medíocre ao lado dele. Depois de 6 anos de relacionamento, resolvi dar um basta. Aí, eu estava assim:

Escolhi o médico que operava por videolaparoscopia (precisava ter uma recuperação rápida, afinal meu filho estava aprendendo a andar), fiz todos os exames e me preparei muito bem com a psicóloga. Em 08 de dezembro entrei na sala de cirurgia. Sim, em 08 de dezembro nascia Ana Claudia Basto Bertolazi.

Hoje entre outras coisas, me sinto vitoriosa. A obesidade é como uma cicatriz, a gente sempre carrega conosco. Os traumas e o sofrimento que passei não se apagaram com a perda de peso e com o aumento da auto-estima. Ainda me assusto quando vejo as minhas fotos de hoje. “Essa sou eu?” Acho que uma das coisas boas que ganhei com a cirurgia foi que antes eu era compulsiva por doces e hoje substituo-os por frutas com grande satisfação. Meu marido brinca e diz que se eu tivesse adquirido essa consciência antes, não teria precisado operar. E eu digo que sem a cirurgia não teria adquirido consciência alguma.

Um dia desses, em uma reunião lá em casa, peguei uma agenda de 1992 e comecei a ler: “Fulano de tal me olhou, achei estranho, rapazes como fulano de tal nunca me olham, acho que me enganei, não devia ser eu que ele olhava” Senti pena daquela Ana. Começamos a rir, mas na realidade tive mesmo vontade de chorar.

Em uma de minhas saídas recentes, pela primeira vez, fui paquerada de forma muito escancarada. O engraçado foi que eu estava no meio de um parquinho brincando com meu filho. A abordagem foi tão descabida, afinal, estava portando minha aliança, que fiquei sem reação. Me senti profundamente lisonjeada e ao mesmo tempo muito intimidada, desprotegida. Na verdade senti vergonha da situação, se fosse em outra época, se eu fosse solteira e desimpedida... Acho que são as marcas do preconceito que sofri, embora não sejam mais tão profundas, ainda existem.

Recentemente dei uma entrevista para o Jornal da Comunidade, um jornal local. O fotógrafo parecia estar encantado, não acreditava que eu podia, a menos de 2 anos ter quase o dobro do peso. A foto que saiu foi essa:

 

 

 

Comorbidades antes da cirurgia: nenhuma

Estado de Espírito Atual: Feliz ao extremo.

Me escrevam: anabertolazi@exgordo.com.br

publicado em 08/05/05