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Um ano de Gastroplastia, menos 45 kg e uma felicidade
incondicional. Por alguns anos passei por certas situações que nem
gosto de lembrar. Fui humilhada, servi de chacota e muitas vezes
dentro de casa. Sentia-me uma dinamite pronta para explodir. Para
alguns é fácil falar: aquela menina tem um rosto lindo, mas esta
gorda demais, e só não emagrece porque não quer; por inúmeras vezes
eu ouvi isso e também por incontáveis vezes eu iniciei uma dieta ou
reeducação alimentar, até perdia peso, mas não conseguia levar
adiante e sempre engordava o dobro. Tomei Rivotril, Sibutramina,
Desobesi M, Fórmulas, fiz dietas de alho, da sopa, da carne e nada
adiantava, fiz também academia, caminhada, mas não fazia efeito
nenhum; tudo o que diziam que emagrecia eu fazia. A ansiedade não
nos permite permanecer nessa jornada de dietas, ninguém é gordo
porque quer ser. Ser fofinho é bonitinho, mas ser obeso é
depressivo. Eu sempre gostei de ser fofinha.
   
Mas chegou um tempo em que eu não tinha mais força de
vontade nem pra continuar tentando fazer dietas, me acomodei e a
cada vez que ouvia uma crítica eu comia mais e chorava mais e mais.
Às vezes nem precisava falar, só no olhar eu já sentia o
preconceito. Passei a me isolar, às vezes me sentia um peixe fora
d´água. Brincava, sorria, sempre fui muito vaidosa, gosto de me
maquiar, arrumar meus cabelos, fazer minhas unhas e isso continuei a
fazer, mas já não fazia tanta diferença, pois ninguém elogiava
mesmo, só as minhas amigas que me elogiavam e isso me deixava feliz.
Cheguei a um ponto crítico de pesar 118 kg e antes
disso já não cruzava mais a pernas (como todas as mulheres); não
conseguia andar de salto alto; já não fazia mais minhas unhas, pois
a perna era pesada e era difícil de dobrar para fazer; dançar (tinha
vergonha, pois ficavam olhando); andar, subir e descer escadas e
ladeiras já não aguentava, ficava muito cansada, o corpo inchava
muito por causa da retenção de líquido e dores por causa das
comorbidades; ocupar 2 espaços num coletivo, passar na roleta do
coletivo (era muito constrangedor). Muitas vezes pedi a Deus para
morrer, porque assim eu não precisava mais passar por essas
humilhações. Hoje me arrependo, pois tudo o que eu mais quero é
VIVER!!
   
Certa vez me arrumei toda, gordinha, mas arrumadinha,
todos me elogiaram e alguém disse que quem me elogiava era cego, eu
chorei muito e eu nunca vou me esquecer disso. Sentia dores em todo
o corpo, estava com esteatose hepática (gordura no fígado), passava
noites em claro (apneia do sono), pressão oscilando, várias
comorbidades comprovadas através de exames, os meus joelhos já não
suportavam o peso do meu corpo e até minha menstruação parou de
descer devido a um distúrbio hormonal causado pelo excesso de peso.
Depois veio o desprezo, os olhares de condenação, de
crítica, as línguas ferinas, enfim, mas o que mais me magoava mesmo
era o que eu ouvia dentro de casa, doía muito, com isso chegou à
depressão. Chorava muito sozinha, nossa sofri demais mesmo, com
insinuações mal ditas. Mas nunca permiti que percebessem meu baixo
astral, meu isolamento, sempre sorrindo, fingindo estar feliz, mas
por dentro destroçada e fui levando a vida.
O preconceito e as críticas não paravam, fui a uma
loja procurar emprego e o gerente me olhou de cima abaixo e
perguntou se eu aguentava subir e descer escadas o dia todo, eu ri e
respondi que sim, fiquei pensando... na minha casa falta água e eu
com todo aquele peso passava a noite inteira que muitos dormiam
carregando baldes e mais baldes pesados de água, subindo e descendo
uma ladeira e ele ainda me pergunta isso..rsrsr...enfim, nunca fui
chamada.
Entrar numa loja e achar roupas pra mim era quase
impossível, a numeração 56 ou 54, blusas enormes sem jeito no corpo,
muito raramente eu achava o que eu queria.
Eu já nem tinha mais esperanças de me ver magra.
Deitar era um alívio tremendo, porque relaxava todo o
corpo e nesse momento eu estava livre de comparação.
 
Sempre me pergunto: será que essas pessoas que
criticam, humilham, fazem essas brincadeiras, acham que não dói que
não machuca?
O gordo não é gordo por que acha bonito, sabemos que
fomos fracos em permitir que chegasse a tal situação, mas não nos
condene não nos humilhem, todos os seres humanos tem defeitos e
fraquezas, somo falhos.
Nós obesos mórbidos ou hoje ex-obeso, já temos
problemas, dificuldades e obstáculos demais para enfrentar
diariamente e também temos espelho em casa, nos olhamos todos os
dias.
Falar é fácil, criticar e sorrir dos outros é bom,
mas antes tente se colocar no lugar dessa pessoa, viver a vida que
ela vive. A maior e única felicidade de um obeso é comer e comer
muito e toda hora. Quanto mais somos criticados, mais comemos, é a
forma que encontramos de descarregar a raiva. Ajude, converse (mesmo
que não aguente mais), dê conselhos o incentive a fazer um
tratamento. A ansiedade é um mal que nos assola, que nos rege, é um
impulso incontrolável, é uma tristeza, uma angústia inexplicável, eu
sempre dizia que estava sentindo uma coisa por dentro, pois eu não
sabia explicar o que era essa coisa. Já tive crises de ansiedade de
gritar, de cantar e de colocar numa xícara manteiga com açúcar
misturar bem e comer tudinho, depois me sentia bem mais calma. Era
só ouvi alguma coisa que eu não mereci ouvir que eu descontava na
comida.
 
Hoje eu agradeço primeiramente a Deus que me deu
forças e relevou as besteiras que pedi e que permitiu que eu fizesse
a gastroplastia e que desse tudo certo até hoje, a minha mãe que me
proporcionou à bariátrica, a toda a minha família e amigos que me
apoiaram, oraram e pediram a Deus por minha vida e saúde e a toda a
equipe que me operou que me acompanha até hoje.
Saí de um quadro clínico de uma obesa mórbida com 118
kg, com 161 de altura e vestindo 56 e hoje uma mulher muita mais
saudável, leve pesando 73 kg e vestindo 44 por enquanto, ainda tenho
que perder mais até alcançar a minha meta.
A tristeza passou e hoje eu voltei a ser a Janaina
que eu sempre fui animada, extrovertida, alto astral, engraçada, bem
humorada, enérgica, alegre, sorridente, espontânea, mas a tristeza
ficou gravada em minha memória para que eu nunca mais me permita
chegar a essa situação e sofrer novamente.
Nunca despreze alguém por suas formas físicas ou as
critique, chame pra conversar, dê um conselho, ajude, mas não pise e
nem humilhe, pois assim como você, esse obeso tem sentimentos e o
amanhã a Deus pertence. Se não for ajudar, também não atrapalhe.
Ser ex-gordo é diferente de ser magro. O magro é aquele que já
nasceu predisposto à magreza. O ex-gordo é aquele que lutou e
conseguiu vencer a obesidade, através da cirurgia ou não. Dizer que
um ex-gordo é magro seria o mesmo que dizer que um separado é
solteiro. Para ser ex-gordo é necessário ter o desejo e a força de
vontade de estar magro, pois mesmo com cirurgia precisa de dieta
para conseguir alcançar esse objetivo e se manter assim. SOU DO
CLUBE QUE ESTÁ LUTANDO E ESTÁ VENCENDO.
Operada em 1º/07/2010 às 21h30minh.
Pela Equipe de Dr Marcelo Zollinger no Hospital
Espanhol em Salvador – Bahia
Operei com 118 kg, vestindo 56, hoje estou com 73 kg
e vestindo 44 (por enquanto), 45 kg eliminados, pois não quero
acha-los
Obrigada Senhor por mais essa vitória em minha
vida!!!!
Janaina Gama Falcão Ex Obesa Mórbida. |