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Janaina Gama Falcão

 

DEPOIMENTO


 

Um ano de Gastroplastia, menos 45 kg e uma felicidade incondicional. Por alguns anos passei por certas situações que nem gosto de lembrar. Fui humilhada, servi de chacota e muitas vezes dentro de casa. Sentia-me uma dinamite pronta para explodir. Para alguns é fácil falar: aquela menina tem um rosto lindo, mas esta gorda demais, e só não emagrece porque não quer; por inúmeras vezes eu ouvi isso e também por incontáveis vezes eu iniciei uma dieta ou reeducação alimentar, até perdia peso, mas não conseguia levar adiante e sempre engordava o dobro. Tomei Rivotril, Sibutramina, Desobesi M, Fórmulas, fiz dietas de alho, da sopa, da carne e nada adiantava, fiz também academia, caminhada, mas não fazia efeito nenhum; tudo o que diziam que emagrecia eu fazia. A ansiedade não nos permite permanecer nessa jornada de dietas, ninguém é gordo porque quer ser. Ser fofinho é bonitinho, mas ser obeso é depressivo. Eu sempre gostei de ser fofinha.
 

 

Mas chegou um tempo em que eu não tinha mais força de vontade nem pra continuar tentando fazer dietas, me acomodei e a cada vez que ouvia uma crítica eu comia mais e chorava mais e mais. Às vezes nem precisava falar, só no olhar eu já sentia o preconceito. Passei a me isolar, às vezes me sentia um peixe fora d´água. Brincava, sorria, sempre fui muito vaidosa, gosto de me maquiar, arrumar meus cabelos, fazer minhas unhas e isso continuei a fazer, mas já não fazia tanta diferença, pois ninguém elogiava mesmo, só as minhas amigas que me elogiavam e isso me deixava feliz.

Cheguei a um ponto crítico de pesar 118 kg e antes disso já não cruzava mais a pernas (como todas as mulheres); não conseguia andar de salto alto; já não fazia mais minhas unhas, pois a perna era pesada e era difícil de dobrar para fazer; dançar (tinha vergonha, pois ficavam olhando); andar, subir e descer escadas e ladeiras já não aguentava, ficava muito cansada, o corpo inchava muito por causa da retenção de líquido e dores por causa das comorbidades; ocupar 2 espaços num coletivo, passar na roleta do coletivo (era muito constrangedor). Muitas vezes pedi a Deus para morrer, porque assim eu não precisava mais passar por essas humilhações. Hoje me arrependo, pois tudo o que eu mais quero é VIVER!!

 

 

Certa vez me arrumei toda, gordinha, mas arrumadinha, todos me elogiaram e alguém disse que quem me elogiava era cego, eu chorei muito e eu nunca vou me esquecer disso. Sentia dores em todo o corpo, estava com esteatose hepática (gordura no fígado), passava noites em claro (apneia do sono), pressão oscilando, várias comorbidades comprovadas através de exames, os meus joelhos já não suportavam o peso do meu corpo e até minha menstruação parou de descer devido a um distúrbio hormonal causado pelo excesso de peso.

Depois veio o desprezo, os olhares de condenação, de crítica, as línguas ferinas, enfim, mas o que mais me magoava mesmo era o que eu ouvia dentro de casa, doía muito, com isso chegou à depressão. Chorava muito sozinha, nossa sofri demais mesmo, com insinuações mal ditas. Mas nunca permiti que percebessem meu baixo astral, meu isolamento, sempre sorrindo, fingindo estar feliz, mas por dentro destroçada e fui levando a vida.

O preconceito e as críticas não paravam, fui a uma loja procurar emprego e o gerente me olhou de cima abaixo e perguntou se eu aguentava subir e descer escadas o dia todo, eu ri e respondi que sim, fiquei pensando... na minha casa falta água  e eu com todo aquele peso passava a noite inteira que muitos dormiam carregando baldes e mais baldes pesados de água, subindo e descendo uma ladeira e ele ainda me pergunta isso..rsrsr...enfim, nunca fui chamada.

Entrar numa loja e achar roupas pra mim era quase impossível, a numeração 56 ou 54, blusas enormes sem jeito no corpo, muito raramente eu achava o que eu queria.

Eu já nem tinha mais esperanças de me ver magra.

Deitar era um alívio tremendo, porque relaxava todo o corpo e nesse momento eu estava livre de comparação.

 

 

Sempre me pergunto: será que essas pessoas que criticam, humilham, fazem essas brincadeiras, acham que não dói que não machuca?

O gordo não é gordo por que acha bonito, sabemos que fomos fracos em permitir que chegasse a tal situação, mas não nos condene não nos humilhem, todos os seres humanos tem defeitos e fraquezas, somo falhos.

Nós obesos mórbidos ou hoje ex-obeso, já temos problemas, dificuldades e obstáculos demais para enfrentar diariamente e também temos espelho em casa, nos olhamos todos os dias.

Falar é fácil, criticar e sorrir dos outros é bom, mas antes tente se colocar no lugar dessa pessoa, viver a vida que ela vive. A maior e única felicidade de um obeso é comer e comer muito e toda hora. Quanto mais somos criticados, mais comemos, é a forma que encontramos de descarregar a raiva. Ajude, converse (mesmo que não aguente mais), dê conselhos o incentive a fazer um tratamento. A ansiedade é um mal que nos assola, que nos rege, é um impulso incontrolável, é uma tristeza, uma angústia inexplicável, eu sempre dizia que estava sentindo uma coisa por dentro, pois eu não sabia explicar o que era essa coisa. Já tive crises de ansiedade de gritar, de cantar e de colocar numa xícara manteiga com açúcar misturar bem e comer tudinho, depois me sentia bem mais calma. Era só ouvi alguma coisa que eu não mereci ouvir que eu descontava na comida.

 

 

Hoje eu agradeço primeiramente a Deus que me deu forças e relevou as besteiras que pedi e que permitiu que eu fizesse a gastroplastia e que desse tudo certo até hoje, a minha mãe que me proporcionou à bariátrica, a toda a minha família e amigos que me apoiaram, oraram e pediram a Deus por minha vida e saúde e a toda a equipe que me operou que me acompanha até hoje.

Saí de um quadro clínico de uma obesa mórbida com 118 kg, com 161 de altura e vestindo 56 e hoje uma mulher muita mais saudável, leve pesando 73 kg e vestindo 44 por enquanto, ainda tenho que perder mais até alcançar a minha meta.

A tristeza passou e hoje eu voltei a ser a Janaina que eu sempre fui animada, extrovertida, alto astral, engraçada, bem humorada, enérgica, alegre, sorridente, espontânea, mas a tristeza ficou gravada em minha memória para que eu nunca mais me permita chegar a essa situação e sofrer novamente.

Nunca despreze alguém por suas formas físicas ou as critique, chame pra conversar, dê um conselho, ajude, mas não pise e nem humilhe, pois assim como você, esse obeso tem sentimentos e o amanhã a Deus pertence. Se não for ajudar, também não atrapalhe.

Ser ex-gordo é diferente de ser magro. O magro é aquele que já nasceu predisposto à magreza. O ex-gordo é aquele que lutou e conseguiu vencer a obesidade, através da cirurgia ou não. Dizer que um ex-gordo é magro seria o mesmo que dizer que um separado é solteiro. Para ser ex-gordo é necessário ter o desejo e a força de vontade de estar magro, pois mesmo com cirurgia precisa de dieta para conseguir alcançar esse objetivo e se manter assim. SOU DO CLUBE QUE ESTÁ LUTANDO E ESTÁ VENCENDO.

 

Operada em 1º/07/2010 às 21h30minh.

Pela Equipe de Dr Marcelo Zollinger no Hospital Espanhol em Salvador – Bahia

Operei com 118 kg, vestindo 56, hoje estou com 73 kg e vestindo 44 (por enquanto), 45 kg eliminados, pois não quero acha-los

Obrigada Senhor por mais essa vitória em minha vida!!!!

Janaina Gama Falcão Ex Obesa Mórbida.

publicado em  01/07/2011