Fui uma criança magra, sempre no peso ideal, até os 11 anos de idade,
quando desencadeei um processo de ganho de peso. Aos 12 anos era uma
pré-adolescente gordinha, que usava trancinhas no cabelo e muito tímida.
A obesidade atrapalhou
muito a minha adolescência. Minha timidez, por ser diferente das outras
meninas, fez com que eu me afastasse, de certa forma, da vida social na
época. Aos 15 anos conheci um orfanato através da minha prima Renata e aos
17, passei a freqüentar o local com assiduidade e a fazer parte da equipe
durante os 15 anos seguintes da minha vida. Era professora lá.
Eu me trancava neste
lugar, onde me sentia muito bem, muito querida e não sofria preconceito
pela minha obesidade. Fui, então, engordando cada vez mais. Meus
relacionamentos amorosos eram esporádicos pois eu ainda não havia
descoberto a mulher dentro de mim. Isso veio a ocorrer por volta dos 25,
26 anos. Descobri o quanto eu podia ser sensual, o quanto era inteligente,
divertida e que, além de tudo, tinha charme. Comecei a me relacionar com
vários homens, mas nada exagerado e nada que fosse sério.
Com 26 conheci um
rapaz de outra cidade pela Internet e nos apaixonamos de primeira. Ficamos
nos relacionando via chat por cerca de 5 meses até resolvermos nos
encontrar. Foi maravilhoso! Nesse período iniciei mais um dos meus
inúmeros regimes.
Dietas? Conheço todas!
Todo obeso conhece. Dieta dos pontos, da sopa, das frutas, dos sucos, da
lua, do sol, das estrelas... Tudo que você pode imaginar. Mas nada fez o
efeito esperado. Eu chegava a emagrecer. Mas recuperava tudo outra vez em
pouco tempo. E lá estava eu, obesa, mais uma vez!
Isso me incomodava. As
piadinhas dos outros, os olhares que recriminam, as roupas que nunca ficam
bem em você e geralmente nem cabem, o espaço no banco do ônibus ou no
carro dos amigos (já reparou que o obeso tem sempre que ir na frente?), as
roletas, a praia, cadeiras de bar (aquelas branquinhas de plástico)...
essas cadeiras eram um problema! Nunca caí com elas, mas sempre morri de
medo que se abrissem e eu caísse na frente de todos.
O mundo não é feito
para os obesos. A sociedade não permite que seja assim. Quando muito,
fazem algo pelos deficientes físicos. E fazem muito pouco, por sinal! Mas
pros obesos, nem pensar. As pessoas que nunca passaram por esse tipo de
problema se esquecem que o obeso é um doente e não um "sem vergonha". Sim!
É uma doença! Você não deixa de ser um viciado em comida. Como um viciado
em drogas. Eu me via assim. Era viciada em comer. Se eu não comesse, eu
ficava irritada, me sentia fraca, mal, e acabava por comer o dobro do que
comeria se não tivesse me podado. Fora que quando você atinge um
determinado peso, por um longo período de tempo, fica quase impossível
perder todo o excesso através de uma dieta de baixas calorias. Se você
consegue, geralmente recupera tudo outra vez. E não era isso que eu queria
para mim.
Em junho do ano 2000,
minha mãe desencarnou (faleceu) de Edema Pulmonar. Foi um choque muito
grande pra mim, apesar de não demonstrar isso a ninguém e sofrer calada.
Afinal de contas, como uma espírita, deveria dar o exemplo e mostrar tudo
que eu aprendi ao longo desses anos todos de doutrina (conheci o
Espiritismo com 7 anos de idade). Com certeza o Espiritismo me deu consolo
e base para conseguir sobreviver sem minha mãe. Mas, descontei na comida.
No início de 2002, fui
mandada embora do meu emprego no Orfanato, que trabalhei e dediquei 15
anos da minha vida. Foi de uma forma bruta e injusta. Toda a equipe
pedagógica foi mandada embora por falta de verbas (foi o que alegaram, mas
sabíamos que havia muito mais por trás disso, como uma "guerrinha de
poderes" entre membros da diretoria). Isso acabou comigo. Eu fiquei sem
chão. Sem meu segundo lar.
Essa sucessividade de
perdas me fez perder a noção. Desandei a comer sem parar. Não saía de
casa, somente para ir à Faculdade, e virava noites pendurada na Internet.
Atingi o auge do meu peso: 104,5 kg. Esse peso fez um grande efeito sobre
o meu corpo já que sou de estatura baixa, tenho 1,56m. Me sentia infeliz,
gigante. Todas as roupas ficavam apertadas em mim e caíam mal. Me sentia
feia e espaçosa. Estava com um IMC de 43.
Eu já conhecia a
Gastroplastia através da televisão. Era meu sonho poder fazer algo
parecido. Achava que era super simples e minha vida se resolveria como num
passe de mágica. Uma vizinha minha, Monalisa, fez a cirurgia. Eu não
sabia. Fiquei uns 3 meses sem vê-la e, quando vi, tomei um susto!!
Perguntei logo qual era a dieta que ela havia feito. Ao que ela respondeu
sorrindo: "Eu reduzi o estômago!". Meus olhos brilharam! Eu queria saber
tudo a respeito. Perguntei tudo e ela, paciente e empolgada, ia me
incentivando a seguir pelo mesmo caminho. Até hoje, quando nos cruzamos na
rua, ela se emociona ao me ver. Ela está com 4 anos e meio de operada e
está magrinha e saudável!
Resolvi procurar na
Internet assuntos relacionados. Encontrei alguns médicos. Decidida,
marquei consulta com um deles. Adorei! Fui à Reunião mensal, conheci
várias pessoas operadas, entrei para uma lista de discussão por e-mails,
tirei dúvidas, conversei, procurei outros médicos até encontrar o Dr.
Jorge Luíz Monteiro, meu médico. O Dr.Jorge opera por videolaparascopia, a
técnica que eu queria. No dia 25 de março eu entrava na sala de cirurgia
para me operar por By Pass em Y de Roux (Capella sem anel).
Lembro-me do medo que
senti dentro daquela sala gelada e cheia de aparelhos. Mas a equipe estava
calma, brincavam entre si, me confortavam e tratavam com carinho. Apaguei.
Acordei no CTI pós-operatório, onde fiquei por 5 dias em observação por
causa de uma febre e falta de quarto. Descobriram depois que a febre era
de uma infecção urinária. Eu me sentia ótima! Não senti nenhuma dor nos
cortes ou abdômen. Fui pra casa 8 dias depois.
Fiquei anêmica, tive
crises de tosse, garganta doendo por causa do tubo, fiquei muito mal nos 2
primeiros meses. A dieta de líquidos não me incomodou em nada. Eu nem
agüentava beber tanto. Eram 2 a 3 dedinhos de líquido de 30 em 30 minutos.
Durante 1 mês. Mas eu não sentia fome. Até hoje não sinto. No terceiro mês
eu estava recuperada da anemia, sem a tosse, me sentia bem. Voltei às
minhas atividades normais. Sentia os quilos se esvaírem como água. Mas só
me preocupava com a minha saúde. Não entendia porque certas pessoas
ficavam tão bem logo após a operação, sem ter nenhum tipo de doença.
Vomitei muito nesse
período e fiz vários exames para descobrir a causa dos vômitos. Estava
tudo normal dentro de mim. Eu é que não sabia comer direito. Após esta
cirurgia, temos que nos reeducar completamente em relação à alimentação.
Temos que aprender a comer saudavelmente, comidas que sejam leves, de
fácil digestão. Temos que comer lentamente e mastigando muito bem. Quanto
mais pastosa a comida ficar, melhor será para o estômago trabalhar sobre
ela. Do contrário, é vômito na certa.
Um ano e seis meses se
passaram desde então e muita coisa mudou na minha vida.
Você se acostuma a ser
magro. No início as coisas ficam meio confusas na sua cabeça. Você sempre
acha que não vai caber naquele espaço pequeno, ou que a roupa vai ficar
apertada, ou que a cadeira vai cair... mesmo tendo perdido 48 kg. Mesmo
estando vestindo número 40. Mesmo pesando 56 kg. Então, aos poucos, você
vai se habituando a caber, a entrar nas roupas, a sentar a vontade pois a
cadeira não vai mais cair. Você se habitua com o espelho. Antes é uma
guerra! Você passa diante do espelho e volta para olhar outra vez e
confirmar que aquela imagem é realmente a sua. Então você faz caras e
bocas, mexe nos cabelos, ajeita a roupa e pensa: "Potz! Sou eu mesma! E eu
tô linda!"
Seus amigos não te
reconhecem. Olham pra você, olham outra vez e mais uma vez. Olham toda
hora. Você ri. Vai se acostumando pois até eles se habituarem ao seu "novo
eu" será assim. Com seus familiares é assim também. Mesmo os que vivem na
mesma casa que você.
Os elogios chegam em
abundância. E você nunca se acostuma, sempre se envergonha e se sente
lisonjeado. Na rua, você não se sente mais um bicho acuado. A rua é toda
sua, você se torna mais espaçoso do que era quando obeso. Você agora tem
segurança. A auto-estima está alta. Você pode comprar um pão doce e ir
comendo no meio da rua que ninguém te olha com ar reprovador.
Você deixa de ouvir
piadas de gordos para ouvir gracejos como: "gata", "linda", etc. Aquele
gato que nunca olhou para a sua cara quando você era obesa e ignorava a
sua humilde existência agora quer o seu número de telefone. E você pode
dizer a ele, de boca cheia, que você tem namorado. E ainda, de quebra,
pode ver a cara de decepção do gato! ;o) (Ah, diz que não é engraçado!)
Você se sente normal
em todos os aspectos: normal entre a multidão, normal para um exercício
físico, normal para comprar roupa em qualquer loja.
E tudo ocorreu SEM
passar fome. Foi tudo natural. Você não come porque não quer. Você se
adapta. Se sacia com muito pouco. Nunca teria conseguido isso numa dieta
normal.
Consigo comer qualquer
coisa, só que em quantidade bem menor. Inclusive doces! Nunca tive
Dumping. Certa vez
Enfim, estou
satisfeita com a operação e recomendo para aqueles que estão com o IMC de
40 para cima. Mas que fique claro uma coisa: isso não é uma brincadeira! É
uma mudança RADICAL na sua vida. Pense muito bem antes de fazer e escolha
um médico que você realmente goste, inclusive a equipe dele, pois você
terá que conviver com eles para o resto de sua vida. Tenha paciência,
pesquise bastante e não se apresse. Esse tempo é necessário à você.
E muito sucesso na sua
escolha!!