A executiva Carla Toledo, de 38 anos, é uma bela
loura de olhos verdes, que já chegou a pesar 146 kg. Obesa desde
criança, ela sentiu o peso do preconceito e sofreu com apelidos
maldosos como Carla 'Tonelada'. Há dois anos, depois de uma
depressão, Carla decidiu reconstruir seu corpo e sua vida: fez a
cirurgia de redução de estômago, perdeu 60 kg e passou por três
operações plásticas para ter o corpo que sempre sonhou. Hoje, ela se
prepara para usar o primeiro biquíni de sua vida. 'Enfim, sinto que
meu corpo é minha casa', diz.
Meu corpo tem várias cicatrizes. Elas são finas e
longas. Eu as trato com o maior carinho, passando cremes todos os
dias. Se as pessoas me perguntam o que é, não tenho vergonha de
falar. Essas cicatrizes são minhas 'tatuagens'. Sinto orgulho delas
porque contam a história da minha vida. Revelam que eu já pesei 146
kg, perdi quase a metade disso e passei por quatro grandes cirurgias
para me tornar o que sou hoje: uma mulher bonita, feliz e em paz
comigo mesma.
Uma vez assisti a um filme com a Sandra Bullock, chamado 'Quando o
Amor Acontece'. No final, a personagem dela diz: 'A infância é
aquilo que você passa a vida toda tentando superar'. A minha
infância foi marcada pela amargura porque, desde pequena, apresentei
excesso de peso, embora não houvesse outros casos de obesidade na
família. Sou a filha do meio, entre duas irmãs magrinhas. Minha mãe
também sempre foi magra e muito bonita.
Ninguém nunca soube explicar as causas de minha obesidade. Havia
especulações: minha irmã mais velha nasceu de 7 meses. Talvez por
isso meus pais tenham exagerado nos cuidados comigo. Também tive
desidratação quando era pequena. Isso gerou uma dieta reforçada
depois. Meus pais me levaram a um endocrinologista, fiz diversos
exames, mas nenhum problema foi diagnosticado. O fato é que minha
primeira lembrança de mim mesma já é a de uma menina gorda. E,
junto, havia o sentimento: 'Isso não é o que esperavam de mim'.
Em compensação, sempre fui a mais bonita. Nasci loura de olhos
verdes, diferente de minhas irmãs. Todos diziam que eu era o bebê
mais bonito da família. Ao mesmo tempo, era um peso, porque cada um
tinha uma dieta para indicar, um conselho para dar. As reuniões de
família eram terríves para mim. Eu ouvia comentários de todos os
lados, como: 'Não coma isso que engorda' ou 'Um rosto tão bonito!'.
Esse último era o mais comum e soava quase como um lamento. Aos 6
anos fiz a primeira dieta, estimulada por meus pais. Eu sofria
muito, pois queria o que toda criança quer: comer doces à vontade.
Meus primos comiam de tudo, para eles só existiam 'sins'. Só eu
ouvia 'nãos'.
No colégio, eu era a única gordinha da turma. Meus colegas faziam um
trocadilho com meu nome: em vez de Carla Toledo, eu era Carla
'Tonelada'. Na hora de escolher o time para jogar vôlei, por
exemplo, eu sempre sobrava. Tudo isso me revoltava. Eu vivia me
perguntando: 'Por que sou diferente? Por que as pessoas não me
aceitam como sou?'. Mas os outros simplemente não ligavam para o que
eu estava sentindo.
Meu pai, que era policial e adorava esportes,
tinha uma frase que me marcou: 'Você pode ser gorda, mas não pode
ser mole!'. Pratiquei vários esportes, mais por obrigação do que por
prazer. Fiz natação, ginástica e tinha uma flexibilidade grande. Mas
continuava gorda.
Aos 14 anos, antes de entrar no segundo grau, fiz uma dieta radical,
com remédios para controlar o apetite e acompanhamento médico.
Consegui um corpo bom: 85 kg em 1,70 m. Ainda estava gordinha, mas
me sentia bem. Só que, na virada do primeiro para o segundo ano,
engordei tudo de novo. Cheguei ao manequim 56! Fiquei um ano sem
sair de casa, só ia ao colégio. Sentia culpa por ser como eu era e
não queria envergonhar minha família. As situações mais comuns
contribuíam para isso: as meninas usavam minissaia e a minha era
abaixo do joelho. Ao entrar numa loja de roupas, a vendedora me
olhava de cima a baixo e perguntava: 'Mas é para você?'. Eu me
sentia terrivelmente mal e buscava explicações para o que não tinha
explicação. Porque eu não me achava tão gorda, me achava bonita!
Queria ser amada do jeito que eu era, e não quando coubesse num
manequim 42.
Apesar de estar fora do padrão, sempre fui paquerada. Sabe como é
aquele ditado: se todos gostassem do azul, o que seria do amarelo?
Meu primeiro beijo na boca foi aos 11 anos. Eu estava de férias na
casa da minha avó, no interior de Minas. Um menino de 16 anos se
interessou por mim e me sapecou um beijo. Rolava até uma competição
entre eu e minha irmã mais nova, que era magrinha. Em outra viagem
de férias, disputamos um paquera. No fim das contas, consegui
conquistar não somente esse garoto como um outro do grupo. Eram
namorinhos de adolescente, nada duradouro. Mas assim eu ia testando
a minha sensualidade.
Durante a faculdade, fiz uma dieta baseada na ingestão de proteínas
e consegui emagrecer novamente. Tive outros casos rápidos, nunca um
namorado que chegasse a apresentar aos meus pais. Escolhi cursar
ciências contábeis, uma carreira masculina, e consegui me destacar.
Depois de formada, a vida profissional foi o canal para eu me
desenvolver e provar que podia ser aceita de alguma forma. Meu corpo
podia ter limitações, mas meu cérebro não. Tinha uma sensação grande
de vitória e isso me dava ânimo para me dedicar mais ao trabalho, e
esquecer do corpo. Mas isso não funcionou, e engordei tudo
novamente.
Aos 28 anos, cheguei ao meu peso máximo: 146 kg. Resolvi, um ano
depois, emagrecer a qualquer custo. Mais uma dieta radical e
consegui perder 55 kg. Ao mesmo tempo, desenvolvi hipertireoidismo.
Ao longo da vida, tomei todo tipo de remédios para emagrecer, sem
saber que a maioria estimula o funcionamento da tireóide, para
acelerar o metabolismo e a queima das gorduras. Com hipertireoidismo,
o organismo está sempre agitado, mesmo em repouso. Eu tinha os
batimentos cardíacos acelerados, sentia cansaço constante.
De repente, aos 29 anos, me dei conta: mesmo quando eu conseguia
emagrecer, não ficava feliz. Com essa constatação, veio uma
depressão terrível, que é um outro sintoma do hipertireoidismo.
Levei muito tempo para aceitar que tinha uma moléstia grave. De 1997
a 2001, tentei controlar a doença com remédios. Mas, se parava de
tomar, voltava tudo. A ficha caiu numa ocasião em que minha pressão
subiu muito. O médico fez questão de me internar, dizendo: 'Você
pode morrer de um dia para outro'. Depois desse susto, veio o
diagnóstico: era preciso operar a tireóide. Na cirurgia, foram
retirados 95% da glândula e, desde então, a reposição hormonal é
feita com remédios. Vou ter que tomar esses medicamentos por toda a
vida.
O médico que operou minha tireóide me falou pela primeira vez sobre
a cirurgia bariátrica, mais conhecida como cirurgia de redução do
estômago. Ele é especialista no assunto e senti muita confiança.
Porém, logo depois de operar a tireóide, surgiu uma oportunidade
excepcional de morar fora do Brasil. Eu vinha pensando em fazer
mestrado na Inglaterra e a empresa onde eu trabalhava permitiu que
eu fosse transferida para o escritório de lá, a fim de estudar e
continuar empregada. Contei ao médico e ele mesmo falou que era
melhor esperar.
Eu passei dois anos em Londres. Foi maravilhoso, mas difícil também.
A faculdade era um ambiente de gente jovem, 25 anos em geral, e eu
me sentia sozinha. Isso fez com que eu mergulhasse dentro de mim,
tendo que me bastar. Cheguei a namorar um brasileiro e também um
inglês, que conheci no metrô. O romance durou três meses. Foi legal,
mas não seguiu em frente.
No Natal de 2003, voltei ao Rio de Janeiro e
soube da morte de uma antiga chefe, que também sofria de obesidade.
Ela teve um enfarte fulminante aos 40 anos, provocado por problemas
na tireóide. Aquilo mexeu comigo. De volta à Europa, decidi
aproveitar um feriado prolongado para ir à França. No avião, a
caminho da cidade de Lyon, uma pergunta pulava na minha cabeça: 'O
que fazer da minha vida?'. Olhando o céu azul e o tapete de nuvens
através da janela, veio a resposta: 'Vou mudar a minha história'.
Naquele momento, decidi fazer a cirurgia de redução do estômago. A
diferença é que eu não faria aquilo para me encaixar num padrão, mas
pensando na minha qualidade de vida. Pela primeira vez, me dei conta
de que poderia ser saudável e me curar.
Do hotel, em Lyon, liguei para meu médico. Telefonei também para
meus familiares e meus amigos. Eu estava pronta. A empresa permitiu
que eu voltasse, me deram um mês de licença remunerada. Cheguei no
Rio em agosto de 2004 e fiz vários exames. Não é uma cirurgia
simples, que a pessoa decide e pronto. Além do laudo do cirurgião,
são necessários os laudos de um cardiologista, um ginecologista, um
psiquiatra e um endocrinologista. Os resultados deram sinal verde
para a cirurgia.
Ao mesmo tempo, eu freqüentava reuniões de apoio para quem vai se
operar. Esses encontros são importantes para o paciente tomar
consciência do processo pelo qual vai passar, para mudar seus
hábitos alimentares. Há também os riscos. No grupo, soubemos do caso
de um paciente que morreu após a cirurgia. Mas a consciência de que
algo poderia dar errado só veio na hora em que tive de assinar um
termo de responsabilidade dando ao médico poderes para fazer 'o que
fosse necessário' para salvar minha vida. Assinei com toda
confiança.
O grande dia chegou: 2 de setembro de 2004. Foram cinco horas de
cirurgia e 24 horas no CTI. Quando abri os olhos, pensei: 'O que fiz
comigo mesma?'. Eles mexem em tudo dentro da gente. O meu estômago
foi reduzido ao tamanho de uma xícara de café. Colocaram um anel de
silicone em volta dele, para dar a medida de sua expansão. Vai
fi-car lá para sem-pre. A comida pas-sa direto e cai na primeira
porção do intestino. Por isso, os operados têm que mastigar tudo
muito bem. Essa inversão emagrece, mas também prejudica o
aproveitamento das vitaminas e minerais. Tenho que fazer exames
constantes a fim de detectar carências nutricionais e terei que
tomar polivitamínicos para sempre.
Fui operada numa quinta-feira e no domingo tive alta. No primeiro
mês, a gente só se alimenta de líquidos, depois entram os alimentos
pastosos e sólidos. Senti como se tivesse voltado a ser bebê, tendo
que aprender a me alimentar. O pós-operatório foi bem incômodo.
Muitas vezes a comida não caía bem ou eu vomitava. A cicatriz ficou
doendo por uns três meses. Mas emagreci 30 kg, de cara. Voltei a
trabalhar depois de dois meses e continuei freqüentando o grupo de
apoio.
Assim que saí da operação, acreditei que nunca mais me submeteria a
qualquer outra intervenção de livre e espontânea vontade. Um ano
depois, porém, comecei a pensar em completar a transformação. Meu
corpo estava mais magro, eu já vestia manequim 44. Mas o excesso de
pele incomodava. Queria ter o corpo com o qual sonhava antes de me
operar. Queria usar um jeans apertado, me acariciar e me sentir
sensual.
Respirei fundo e resolvi pedir demissão do emprego, pa-ra ter tempo
para me cuidar. Meus chefes ficaram surpresos, mas compreenderam.
Escolhi um especialista em plástica pós-bariátrica, cujo talento e
dedicação foram fundamentais para o sucesso da minha empreitada. A
retirada dos excessos de gordura e pele seria feita em três etapas:
primeiro braços, segundo abdômen e seios, depois pernas e culotes.
A primeira cirurgia aconteceu em dezembro de 2005. Cinco horas na
mesa de operação, muitas dores no pós-operatório. Passei o dia 31 de
dezembro em casa, à base de analgésicos. Passei 40 dias de molho.
Em janeiro de 2006, fiz abdômen e seios. Nove horas de cirurgia.
Coloquei silicone para dar forma aos seios. Passei quase 20 dias
dormindo sentada para não estirar os músculos da barriga, todos
costurados. Mas a recuperação foi boa. Segui estritamente as ordens
do médico. Além disso, tive o carinho dos amigos e da família,
especialmente de minha mãe. Para a terceira cirurgia, tive que
reunir as forças que tinha e que não tinha. Eu me sentia esgotada,
mas me olhava no espelho e o 'andar de baixo' não combinava com o de
cima. Fui em frente. Foram 11 horas de operação, para fazer lipo nos
quadris e nas coxas. Lembro da minha mãe dizendo: 'Filha, se
houvesse mais alguma cirurgia, eu é quem não agüentaria'.
Hoje, olho para trás e vejo que todo sofrimento foi um preço justo
para o prazer que passei a sentir comigo mesma. Para começar, dei
todas as minhas roupas e comprei tudo novo. A primeira aquisição foi
um biquíni marrom com lacinhos nas laterais, que vi a atriz Flávia
Alessandra usando numa revista. Antes, eu só usava maiô preto.
Quando me olhei no espelho, experimentando um biquíni pela primeira
vez na vida, me senti maravilhosa. Aos poucos, o preto deu lugar ao
rosa, branco, amarelo, laranja. Os modelos longos e largos deram
lugar às roupas justas, para realçar minhas novas formas. Hoje eu
visto 42, algumas peças são 40.
Por enquanto não posso tomar sol, para não
escurecer as cicatrizes. Na parte interna das coxas, elas vão do
joelho à virilha. Na barriga, há uma horizontal e uma vertical, que
desce dos seios ao púbis. E ainda há as que ficam na parte interna
dos braços, do cotovelo às axilas. Eu me sinto um pouco
Frankenstein, mas prefiro mil vezes as marcas ao excesso de pele.
Nem penso em fazer plástica para tirar as cicatrizes. Gosto delas
porque revelam minha capacidade de superação.
Ao todo, perdi quase 60 kg. Peso 75 kg e rejuvenesci uns 20 anos. É
como se eu vivesse carregando outra pessoa e, de repente, a tiraram
de cima de mim. Sei que preciso zelar por esse novo corpo a vida
inteira. E me sinto na obrigação de estimular quem tem o mesmo
problema a fazer a cirurgia. Obesidade mórbida é uma doença
gravíssima. Tem esse nome porque pode matar, aos poucos.
Investi nessa história o valor de um carro zero importado, toda a
reserva que acumulei em anos de trabalho. Depois da alta, comecei a
procurar emprego. Também busco um companheiro que dê valor ao que
sou, ao que conquistei. Sempre quis ser mãe, sentar no chão para
brincar com meu filho. Agora que realizei o sonho de ter um novo
corpo, esse desejo abrandou. Tenho consciência de que pode ou não
acontecer, mas quem sabe a vida ainda me traga isso.
Hoje me sinto em paz, zerada em relação a qualquer sofrimento. Estou
pronta para começar um diário onde cada página é o dia 1o de
janeiro. Às vezes, não temos consciência de quanto estamos mal. A
mim, faltava a consciência do meu corpo, do quanto desejava viver
com qualidade. Só eu podia tomar as rédeas de minha vida. Hoje, aos
38 anos, sou apaixonada por mim! Posso cruzar as pernas, algo tão
banal, mas que eu não conseguia fazer antes. Posso correr na grama
com minha sobrinha. Faço yoga, que amplia minha consciência e
equilíbrio. Enfim, posso sentir que meu corpo é realmente a minha
casa.'