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03/11/2006 - ExgordoNews - Artigo da Revista Marie Claire - Edição 188 - Nov/06
Entrevista com Carla Toledo, 38 anos, 60 quilos eliminados

A executiva Carla Toledo, de 38 anos, é uma bela loura de olhos verdes, que já chegou a pesar 146 kg. Obesa desde criança, ela sentiu o peso do preconceito e sofreu com apelidos maldosos como Carla 'Tonelada'. Há dois anos, depois de uma depressão, Carla decidiu reconstruir seu corpo e sua vida: fez a cirurgia de redução de estômago, perdeu 60 kg e passou por três operações plásticas para ter o corpo que sempre sonhou. Hoje, ela se prepara para usar o primeiro biquíni de sua vida. 'Enfim, sinto que meu corpo é minha casa', diz.

Meu corpo tem várias cicatrizes. Elas são finas e longas. Eu as trato com o maior carinho, passando cremes todos os dias. Se as pessoas me perguntam o que é, não tenho vergonha de falar. Essas cicatrizes são minhas 'tatuagens'. Sinto orgulho delas porque contam a história da minha vida. Revelam que eu já pesei 146 kg, perdi quase a metade disso e passei por quatro grandes cirurgias para me tornar o que sou hoje: uma mulher bonita, feliz e em paz comigo mesma.

Uma vez assisti a um filme com a Sandra Bullock, chamado 'Quando o Amor Acontece'. No final, a personagem dela diz: 'A infância é aquilo que você passa a vida toda tentando superar'. A minha infância foi marcada pela amargura porque, desde pequena, apresentei excesso de peso, embora não houvesse outros casos de obesidade na família. Sou a filha do meio, entre duas irmãs magrinhas. Minha mãe também sempre foi magra e muito bonita.

Ninguém nunca soube explicar as causas de minha obesidade. Havia especulações: minha irmã mais velha nasceu de 7 meses. Talvez por isso meus pais tenham exagerado nos cuidados comigo. Também tive desidratação quando era pequena. Isso gerou uma dieta reforçada depois. Meus pais me levaram a um endocrinologista, fiz diversos exames, mas nenhum problema foi diagnosticado. O fato é que minha primeira lembrança de mim mesma já é a de uma menina gorda. E, junto, havia o sentimento: 'Isso não é o que esperavam de mim'.

Em compensação, sempre fui a mais bonita. Nasci loura de olhos verdes, diferente de minhas irmãs. Todos diziam que eu era o bebê mais bonito da família. Ao mesmo tempo, era um peso, porque cada um tinha uma dieta para indicar, um conselho para dar. As reuniões de família eram terríves para mim. Eu ouvia comentários de todos os lados, como: 'Não coma isso que engorda' ou 'Um rosto tão bonito!'. Esse último era o mais comum e soava quase como um lamento. Aos 6 anos fiz a primeira dieta, estimulada por meus pais. Eu sofria muito, pois queria o que toda criança quer: comer doces à vontade. Meus primos comiam de tudo, para eles só existiam 'sins'. Só eu ouvia 'nãos'.

No colégio, eu era a única gordinha da turma. Meus colegas faziam um trocadilho com meu nome: em vez de Carla Toledo, eu era Carla 'Tonelada'. Na hora de escolher o time para jogar vôlei, por exemplo, eu sempre sobrava. Tudo isso me revoltava. Eu vivia me perguntando: 'Por que sou diferente? Por que as pessoas não me aceitam como sou?'. Mas os outros simplemente não ligavam para o que eu estava sentindo.
 

Meu pai, que era policial e adorava esportes, tinha uma frase que me marcou: 'Você pode ser gorda, mas não pode ser mole!'. Pratiquei vários esportes, mais por obrigação do que por prazer. Fiz natação, ginástica e tinha uma flexibilidade grande. Mas continuava gorda.

Aos 14 anos, antes de entrar no segundo grau, fiz uma dieta radical, com remédios para controlar o apetite e acompanhamento médico. Consegui um corpo bom: 85 kg em 1,70 m. Ainda estava gordinha, mas me sentia bem. Só que, na virada do primeiro para o segundo ano, engordei tudo de novo. Cheguei ao manequim 56! Fiquei um ano sem sair de casa, só ia ao colégio. Sentia culpa por ser como eu era e não queria envergonhar minha família. As situações mais comuns contribuíam para isso: as meninas usavam minissaia e a minha era abaixo do joelho. Ao entrar numa loja de roupas, a vendedora me olhava de cima a baixo e perguntava: 'Mas é para você?'. Eu me sentia terrivelmente mal e buscava explicações para o que não tinha explicação. Porque eu não me achava tão gorda, me achava bonita! Queria ser amada do jeito que eu era, e não quando coubesse num manequim 42.

Apesar de estar fora do padrão, sempre fui paquerada. Sabe como é aquele ditado: se todos gostassem do azul, o que seria do amarelo? Meu primeiro beijo na boca foi aos 11 anos. Eu estava de férias na casa da minha avó, no interior de Minas. Um menino de 16 anos se interessou por mim e me sapecou um beijo. Rolava até uma competição entre eu e minha irmã mais nova, que era magrinha. Em outra viagem de férias, disputamos um paquera. No fim das contas, consegui conquistar não somente esse garoto como um outro do grupo. Eram namorinhos de adolescente, nada duradouro. Mas assim eu ia testando a minha sensualidade.

Durante a faculdade, fiz uma dieta baseada na ingestão de proteínas e consegui emagrecer novamente. Tive outros casos rápidos, nunca um namorado que chegasse a apresentar aos meus pais. Escolhi cursar ciências contábeis, uma carreira masculina, e consegui me destacar. Depois de formada, a vida profissional foi o canal para eu me desenvolver e provar que podia ser aceita de alguma forma. Meu corpo podia ter limitações, mas meu cérebro não. Tinha uma sensação grande de vitória e isso me dava ânimo para me dedicar mais ao trabalho, e esquecer do corpo. Mas isso não funcionou, e engordei tudo novamente.

Aos 28 anos, cheguei ao meu peso máximo: 146 kg. Resolvi, um ano depois, emagrecer a qualquer custo. Mais uma dieta radical e consegui perder 55 kg. Ao mesmo tempo, desenvolvi hipertireoidismo. Ao longo da vida, tomei todo tipo de remédios para emagrecer, sem saber que a maioria estimula o funcionamento da tireóide, para acelerar o metabolismo e a queima das gorduras. Com hipertireoidismo, o organismo está sempre agitado, mesmo em repouso. Eu tinha os batimentos cardíacos acelerados, sentia cansaço constante.

De repente, aos 29 anos, me dei conta: mesmo quando eu conseguia emagrecer, não ficava feliz. Com essa constatação, veio uma depressão terrível, que é um outro sintoma do hipertireoidismo. Levei muito tempo para aceitar que tinha uma moléstia grave. De 1997 a 2001, tentei controlar a doença com remédios. Mas, se parava de tomar, voltava tudo. A ficha caiu numa ocasião em que minha pressão subiu muito. O médico fez questão de me internar, dizendo: 'Você pode morrer de um dia para outro'. Depois desse susto, veio o diagnóstico: era preciso operar a tireóide. Na cirurgia, foram retirados 95% da glândula e, desde então, a reposição hormonal é feita com remédios. Vou ter que tomar esses medicamentos por toda a vida.

O médico que operou minha tireóide me falou pela primeira vez sobre a cirurgia bariátrica, mais conhecida como cirurgia de redução do estômago. Ele é especialista no assunto e senti muita confiança. Porém, logo depois de operar a tireóide, surgiu uma oportunidade excepcional de morar fora do Brasil. Eu vinha pensando em fazer mestrado na Inglaterra e a empresa onde eu trabalhava permitiu que eu fosse transferida para o escritório de lá, a fim de estudar e continuar empregada. Contei ao médico e ele mesmo falou que era melhor esperar.

Eu passei dois anos em Londres. Foi maravilhoso, mas difícil também. A faculdade era um ambiente de gente jovem, 25 anos em geral, e eu me sentia sozinha. Isso fez com que eu mergulhasse dentro de mim, tendo que me bastar. Cheguei a namorar um brasileiro e também um inglês, que conheci no metrô. O romance durou três meses. Foi legal, mas não seguiu em frente.
 

No Natal de 2003, voltei ao Rio de Janeiro e soube da morte de uma antiga chefe, que também sofria de obesidade. Ela teve um enfarte fulminante aos 40 anos, provocado por problemas na tireóide. Aquilo mexeu comigo. De volta à Europa, decidi aproveitar um feriado prolongado para ir à França. No avião, a caminho da cidade de Lyon, uma pergunta pulava na minha cabeça: 'O que fazer da minha vida?'. Olhando o céu azul e o tapete de nuvens através da janela, veio a resposta: 'Vou mudar a minha história'. Naquele momento, decidi fazer a cirurgia de redução do estômago. A diferença é que eu não faria aquilo para me encaixar num padrão, mas pensando na minha qualidade de vida. Pela primeira vez, me dei conta de que poderia ser saudável e me curar.

Do hotel, em Lyon, liguei para meu médico. Telefonei também para meus familiares e meus amigos. Eu estava pronta. A empresa permitiu que eu voltasse, me deram um mês de licença remunerada. Cheguei no Rio em agosto de 2004 e fiz vários exames. Não é uma cirurgia simples, que a pessoa decide e pronto. Além do laudo do cirurgião, são necessários os laudos de um cardiologista, um ginecologista, um psiquiatra e um endocrinologista. Os resultados deram sinal verde para a cirurgia.

Ao mesmo tempo, eu freqüentava reuniões de apoio para quem vai se operar. Esses encontros são importantes para o paciente tomar consciência do processo pelo qual vai passar, para mudar seus hábitos alimentares. Há também os riscos. No grupo, soubemos do caso de um paciente que morreu após a cirurgia. Mas a consciência de que algo poderia dar errado só veio na hora em que tive de assinar um termo de responsabilidade dando ao médico poderes para fazer 'o que fosse necessário' para salvar minha vida. Assinei com toda confiança.

O grande dia chegou: 2 de setembro de 2004. Foram cinco horas de cirurgia e 24 horas no CTI. Quando abri os olhos, pensei: 'O que fiz comigo mesma?'. Eles mexem em tudo dentro da gente. O meu estômago foi reduzido ao tamanho de uma xícara de café. Colocaram um anel de silicone em volta dele, para dar a medida de sua expansão. Vai fi-car lá para sem-pre. A comida pas-sa direto e cai na primeira porção do intestino. Por isso, os operados têm que mastigar tudo muito bem. Essa inversão emagrece, mas também prejudica o aproveitamento das vitaminas e minerais. Tenho que fazer exames constantes a fim de detectar carências nutricionais e terei que tomar polivitamínicos para sempre.
Fui operada numa quinta-feira e no domingo tive alta. No primeiro mês, a gente só se alimenta de líquidos, depois entram os alimentos pastosos e sólidos. Senti como se tivesse voltado a ser bebê, tendo que aprender a me alimentar. O pós-operatório foi bem incômodo. Muitas vezes a comida não caía bem ou eu vomitava. A cicatriz ficou doendo por uns três meses. Mas emagreci 30 kg, de cara. Voltei a trabalhar depois de dois meses e continuei freqüentando o grupo de apoio.

Assim que saí da operação, acreditei que nunca mais me submeteria a qualquer outra intervenção de livre e espontânea vontade. Um ano depois, porém, comecei a pensar em completar a transformação. Meu corpo estava mais magro, eu já vestia manequim 44. Mas o excesso de pele incomodava. Queria ter o corpo com o qual sonhava antes de me operar. Queria usar um jeans apertado, me acariciar e me sentir sensual.

Respirei fundo e resolvi pedir demissão do emprego, pa-ra ter tempo para me cuidar. Meus chefes ficaram surpresos, mas compreenderam. Escolhi um especialista em plástica pós-bariátrica, cujo talento e dedicação foram fundamentais para o sucesso da minha empreitada. A retirada dos excessos de gordura e pele seria feita em três etapas: primeiro braços, segundo abdômen e seios, depois pernas e culotes.

A primeira cirurgia aconteceu em dezembro de 2005. Cinco horas na mesa de operação, muitas dores no pós-operatório. Passei o dia 31 de dezembro em casa, à base de analgésicos. Passei 40 dias de molho.

Em janeiro de 2006, fiz abdômen e seios. Nove horas de cirurgia. Coloquei silicone para dar forma aos seios. Passei quase 20 dias dormindo sentada para não estirar os músculos da barriga, todos costurados. Mas a recuperação foi boa. Segui estritamente as ordens do médico. Além disso, tive o carinho dos amigos e da família, especialmente de minha mãe. Para a terceira cirurgia, tive que reunir as forças que tinha e que não tinha. Eu me sentia esgotada, mas me olhava no espelho e o 'andar de baixo' não combinava com o de cima. Fui em frente. Foram 11 horas de operação, para fazer lipo nos quadris e nas coxas. Lembro da minha mãe dizendo: 'Filha, se houvesse mais alguma cirurgia, eu é quem não agüentaria'.

Hoje, olho para trás e vejo que todo sofrimento foi um preço justo para o prazer que passei a sentir comigo mesma. Para começar, dei todas as minhas roupas e comprei tudo novo. A primeira aquisição foi um biquíni marrom com lacinhos nas laterais, que vi a atriz Flávia Alessandra usando numa revista. Antes, eu só usava maiô preto. Quando me olhei no espelho, experimentando um biquíni pela primeira vez na vida, me senti maravilhosa. Aos poucos, o preto deu lugar ao rosa, branco, amarelo, laranja. Os modelos longos e largos deram lugar às roupas justas, para realçar minhas novas formas. Hoje eu visto 42, algumas peças são 40.
 

Por enquanto não posso tomar sol, para não escurecer as cicatrizes. Na parte interna das coxas, elas vão do joelho à virilha. Na barriga, há uma horizontal e uma vertical, que desce dos seios ao púbis. E ainda há as que ficam na parte interna dos braços, do cotovelo às axilas. Eu me sinto um pouco Frankenstein, mas prefiro mil vezes as marcas ao excesso de pele. Nem penso em fazer plástica para tirar as cicatrizes. Gosto delas porque revelam minha capacidade de superação.

Ao todo, perdi quase 60 kg. Peso 75 kg e rejuvenesci uns 20 anos. É como se eu vivesse carregando outra pessoa e, de repente, a tiraram de cima de mim. Sei que preciso zelar por esse novo corpo a vida inteira. E me sinto na obrigação de estimular quem tem o mesmo problema a fazer a cirurgia. Obesidade mórbida é uma doença gravíssima. Tem esse nome porque pode matar, aos poucos.

Investi nessa história o valor de um carro zero importado, toda a reserva que acumulei em anos de trabalho. Depois da alta, comecei a procurar emprego. Também busco um companheiro que dê valor ao que sou, ao que conquistei. Sempre quis ser mãe, sentar no chão para brincar com meu filho. Agora que realizei o sonho de ter um novo corpo, esse desejo abrandou. Tenho consciência de que pode ou não acontecer, mas quem sabe a vida ainda me traga isso.

Hoje me sinto em paz, zerada em relação a qualquer sofrimento. Estou pronta para começar um diário onde cada página é o dia 1o de janeiro. Às vezes, não temos consciência de quanto estamos mal. A mim, faltava a consciência do meu corpo, do quanto desejava viver com qualidade. Só eu podia tomar as rédeas de minha vida. Hoje, aos 38 anos, sou apaixonada por mim! Posso cruzar as pernas, algo tão banal, mas que eu não conseguia fazer antes. Posso correr na grama com minha sobrinha. Faço yoga, que amplia minha consciência e equilíbrio. Enfim, posso sentir que meu corpo é realmente a minha casa.'

LINK ORIGINAL DA MATÉRIA: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML1326749-1749,00.html