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10/12/2006 - ExgordoNews - Matéria na Internet
Atividades Físicas ajudam a reduzir o medo e a ansiedade

Insegurança, ansiedade, medo, raiva são sentimentos que podem ser reduzidos ou amenizados com algum tipo de atividade física. A perspectiva é: o corpo se movimenta, a mente se acalma e os sentimentos fluem com maior harmonia

É possível encontrar seu ponto de equilíbrio emocional numa sala de academia – na aula de luta, de artes marciais ou em qualquer outra modalidade esportiva. Briguentos de carteirinha podem se tornar mais compassivos, tímidos perdem o medo de se expor e sisudos ficam mais maleáveis. As pessoas, afinal, estão descobrindo que a prática regular de uma atividade física às vezes funciona como ferramenta extra para modelar o temperamento ou desatar nós emocionais e, assim, turbinar os relacionamentos ou a carreira profissional. Isso acontece porque, de um lado, estão os hormônios liberados durante o exercício, como a endorfina, que traz a sensação de bem-estar, e de outro estão as lições de autoconhecimento escondidas por trás de cada golpe, cada passo mais largo ou movimento de braço. “Quando nos mexemos, mobilizamos memórias afetivas”, explica a psicóloga e terapeuta bioenergética Solange Bertão, de São Paulo. “A bionergética acredita que toda informação emocional está no corpo e é acessível. Os movimentos podem, por exemplo, tornar conscientes sentimentos mascarados: por trás da tristeza talvez se esconda a dificuldade de lidar com a raiva”, diz ela. Além disso, o exercício amplia a consciência corporal e isso, na prática, se traduz numa postura mais segura diante da vida. O resultado é uma dose de coragem para enfrentar as dificuldades do dia-adia e, até mesmo, amansar os medos.
 
LIÇÕES DO ORIENTE

Cada um precisa descobrir qual o exercício mais afinado com sua personalidade. Existe, no entanto, uma regra básica: é bom se propor algo em que se sinta à vontade e principalmente que seja coerente com seu ritmo. Segundo a psicóloga Kátia Rúbio, professora do Departamento de Pedagogia do Movimento da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, existem vários fatores que se somam à atividade física e geram benefícios. “O apoio do grupo e a identificação com a modalidade escolhida contam muito”, diz.
Para Florival Scheroki, professor de psicologia do esporte, também de São Paulo, junto com uma atividade física quase sempre vem o convívio com outras pessoas. Isso amplia o campo de compreensão do mundo. “Eu indico algumas práticas para meus pacientes pensando no grupo e nas habilidades que cada um poderá desenvolver naquele ambiente”, conta. O aikido, por exemplo, costuma ser indicado para quem quer equilibrar a agressividade – esteja ela exacerbada ou contida. Nessa arte marcial japonesa, os movimentos são firmes e vigorosos, mas sem o uso da força bruta. Ao receber um golpe, o praticante absorve a força de seu adversário, junta com a sua, e a utiliza para defender- se sem ferir o oponente.
O importante é lutar contra inimigos internos – por exemplo, o medo e a insegurança – e descobrir como conciliar as diferenças. “O que atormenta o homem é a falta de percepção dele próprio e do universo onde vive”, resume o engenheiro civil Wagner Bull, mestre em aikido e fundador do Instituto Takemussu, entidade que representa no Brasil essa prática tradicional.
Outra técnica que tem ótimas lições a ensinar é a esgrima. O esporte exige uma coordenação perfeita de movimentos e, assim, faz com que as pessoas se habituem a criar rápidas e eficientes estratégias de ação. “Com o tempo, os alunos percebem que melhoram o raciocínio, conseguem se expressar com facilidade e ficam mais assertivos, qualidades muito apreciadas, principalmente no mercado de trabalho”, observa Alkhas Lakerbai, da Academia Paulista de Esgrima.
Movimentar-se, afinal, pode render uma experiência gratificante. Os caminhos estão ao alcance do corpo, como mostram Sura Ozi Cukier, Francisco Tupy e Fabiana Daniel, personagens desta reportagem.

 

AJUSTE FINO

Algumas vezes o que precisamos emocionalmente é apenas de um ajuste fino.E a atividade física também ajuda a modular isso. Foi assim com Fabiana Daniel, 29 anos, que há um ano e meio se dedica ao kung fu.Responsável por avaliar sinistros em uma grande seguradora, Fabiana perdia a paciência facilmente com colegas de trabalho e até com clientes. O kung fu, acredita, ajudou a reduzir a tal impaciência. “Aprendi a ouvir e a observar mais, refletir”, diz ela.
Para Gabriel Amorim, fundador do Templo Shaolin de Kung Fu, na atividade o equilíbrio emocional é treinado em cada golpe. “Na luta, o oponente deve ser observado e respeitado, e isso também se leva para a vida. Aprende-se a lidar com a ansiedade e a derrota, trazendo segurança e autoconfiança ao dia-a-dia”, acredita.

CAPOEIRA: segurança conquistada

Os escravos do Brasil usaram a capoeira na luta pela liberdade. Suas armas eram pernas e braços e um gingado certeiro. Embalando os golpes, as músicas falavam das tradições africanas, e o jogo ganhava ares de nostalgia.Venceu o tempo e chegou a nossos dias como uma prática que proporciona flexibilidade, autocontrole e estabilidade.
“Na capoeira você é forçado a sair de sua zona de conforto. Tem que pular, virar de pontacabeça, girar e se defender para não desequilibrar.Além disso, a capoeira trabalha o corpo inteiro, é democrática.Numa roda, todo mundo joga descalço e ninguém é diferente”, defende Paulo Renato Hermógenes, 33 anos, contramestre de capoeira da Fórmula Academia de São Paulo. Para ele, na sociedade atual é necessário ter sucesso em tudo.“Na roda, esquecemos essa identidade sobrecarregada para descobrir outra, mais leve”, diz.
A economista Sura Ozi Cukier, 26 anos, adepta da prática há seis, confirma:“Estou mais aberta para a vida”. De temperamento reservado e trabalhando no estressante mercado financeiro, Sura acha que a capoeira, de fato, trouxe mais leveza a sua vida.“Sempre fui muito séria e na roda você se solta, fala com todo mundo. É como uma folia de criança”, diz. Ela explica que, ao mesmo tempo em que você tem que pensar rápido e estrategicamente, precisa ser flexível, aceitar várias possibilidades. “Se cair, tem que levantar e continuar no jogo, sem contrariedades.” Sura lembra que as pessoas costumavam a identificar como tendo uma cara de brava. “Já faz algum tempo que não ouço esse comentário. Fiquei menos rígida”, comemora, com um bonito sorriso no rosto.

TAI CHI CHUAN: busca da tranqüilidade

Meditação em movimento. É assim que os praticantes de tai chi chuan resumem essa atividade de origem chinesa. A técnica costuma trazer a sintonia entre mente, corpo e Universo por meio de autocontrole, maior sensibilidade e autoconfiança.
O geógrafo Francisco Tupy, 25 anos, sentiu esses benefícios. “Tenho uma natureza inquieta, agitadíssima. Sou criativo, mas tinha muita dificuldade de finalizar meus projetos. Além disso, costumava ficar contrariado quando as coisas não saíam como eu queria”, conta. Com o tai chi, ele conseguiu canalizar sua agressividade e criatividade de forma produtiva. “Respiro fundo e enfrento as situações com muito mais serenidade”, diz. Antes da prática, Francisco tinha problemas, por exemplo, para falar em público. Hoje, ele dá aulas e faz palestras sem ficar tenso.
O tai chi chuan se baseia na polarização dos princípios yin (passivo) e yang (ativo), forças opostas que em equilíbrio mantêm a harmonia do Universo e também de nosso corpo, de acordo com tradição oriental. Seus movimentos, ritmados e lentos, requerem concentração e relaxamento. Encarado como uma luta marcial, cria potência interna e aplica a lei da não-resistência. Ou seja, não usa o excesso de força. A estratégia é reaproveitar a força de ataque do oponente, deslocando-o de seu centro de gravidade.

Link Original da Matéria: http://bonsfluidos.abril.uol.com.br/livre/edicoes/0092/04/04.shtml