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DIETA DE RISCO
Obeso faz regime de engorda para
emagrecer
Pacientes buscam ganho de peso
para atingir limite que possibilita realização de cirurgia de redução do
estômago.
O
advogado gaúcho Fabiano Gouveia, 28, já era um homem gordo, com seus 125
quilos distribuídos em 1,82 m, quando começou uma dieta de engorda, há um
ano e nove meses.
Todos os dias, ele "punha para dentro" duas latas de leite condensado,
alguns litros de refrigerante não-diet. Também empanturrava-se de pães e
de maionese e avançava sobre nacos suculentos de carne com bastante
gordura, fatias lustrosas de bacon e lingüiças. Um saco de 1 quilo de
bombom da marca Ouro Branco era devorado em quatro dias.
Para arrematar, o jovem comprava baldes de 4 quilos de um alimento
hipercalórico da marca Nutrisport, formulado para atletas e esportistas
que desejam ganhar peso sem aumentar o volume das refeições. Praticantes
de atividades físicas intensas usam esses alimentos para ganhar músculos.
No caso de Fabiano, entretanto, a ingestão do composto vinha acompanhada
da seguinte orientação, feita por seu médico: "Não mexa um dedo, não faça
nenhuma atividade esportiva. Assim, todo o excesso alimentar se converterá
em quilos de gordura corporal extra".
Fabiano seguiu à risca o conselho e, 70 dias depois de iniciado o regime,
contava 19 quilos a mais, atingindo a marca de 134 quilos.
Hoje, o advogado pesa 71 quilos. É um homem elegante, mais para magro. Até
cresceu. Mede 1,88 metro, seis centímetros a mais do que tinha na fase
hiperadiposa. "Eu estava literalmente esmagado pela gordura. Minha coluna
vertebral vergara-se, numa cifose, pelo excesso de peso", lembra. O
incrível é que foi a dieta de engorda que abriu para Fabiano as portas do
mundo dos magros.
Parece lógica torta. Não é. Um entre os 17 milhões de brasileiros obesos,
o advogado resolveu recorrer ao expediente mais drástico para emagrecer: a
cirurgia de redução de estômago, que promete perdas de até 40% da massa
corpórea. E quase sem risco de reengorda.
Como se trata de cirurgia agressiva demais, as entidades médicas impuseram
restrições à sua realização. A principal delas: só obesos gravíssimos, ou
com sérios danos à saúde por causa do excesso de peso, são candidatos à
operação.
Um estudo realizado no Brasil mostra que, em cada mil pacientes que fazem
cirurgia da obesidade, três falecem por complicações decorrentes da
operação. Há ainda complicações que, sem levar à morte, podem infligir
sofrimentos grandes ao paciente (leia texto na pág. C3).
O crivo começa pela matemática. Calcula-se o índice de massa corporal
(IMC), indicador que é o resultado da divisão do peso (expresso em quilos)
pelo quadrado da altura (expressa em metro). Quem tiver IMC maior do que
40 pode fazer a operação. Quem tiver IMC entre 35 e 39,9 tem de provar por
exames clínicos que apresenta o que os médicos chamam de "comorbidades"
graves, ou doenças do peso excessivo.
Segundo o endocrinologista Alfredo Halpern, da Universidade de São Paulo,
as comorbidades mais comuns associadas à obesidade são hipertensão
arterial, diabetes, problemas na coluna, apnéia do sono e problemas
coronarianos. "A chance de um obeso com IMC entre 35 e 39,99 não
apresentar nenhuma comorbidade é de apenas 5%", diz.
Muitas vezes, essas comorbidades colocam em risco a vida de um paciente.
Sabe-se, por exemplo, que na faixa dos 25 aos 35 anos a taxa de
mortalidade dos grandes obesos é até 12 vezes maior do que na população em
geral. É para esses que estão na linha de risco que se indica a cirurgia.
E só para esses.
Com critérios tão seletivos, gente que não é obesa mórbida, mas está
cansada da luta contra a balança, na maioria das vezes inglória, começa a
ver na dieta de engorda o acesso mais fácil à cirurgia que, imaginam, será
redentora.
No caso de Fabiano, a engorda foi calculada rigorosamente pelo seu médico.
Antes, o advogado tinha IMC de 37,74. Depois de 70 dias de
hiperalimentação, o IMC foi para 40,45. E veio a cirurgia.
Com a estudante de medicina A., 23, (ela prefere não revelar a
identidade), está sendo um pouco diferente. A. está em pleno processo de
engorda. Com 1,63 m e 84 quilos (IMC = 31,2), A. decidiu chegar aos 96
quilos. Terá IMC de 36,1, o que, acredita ela, tornará possível a cirurgia
de obesidade. Nos sonhos da jovem, a meta será alcançada até dezembro.
O esforço de engorda da estudante é parecido com o do advogado. Como ela é
paulistana e de origem italiana, porém, a dieta conta com um reforço extra
nas massas, sempre besuntadas em molhos com muito creme de leite.
A. não contou com orientação médica para sua dieta. Ao contrário, fugiu do
especialista que a aconselhou a perseverar nas dietas tradicionais de
emagrecimento em vez de tentar a cirurgia. "Ele não teve compaixão. Só
volto a me apresentar a um médico quando conquistar o peso indicado para a
operação."
O cirurgião Marcelo Roque de Oliveira,
47, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e da
equipe de médicos do prestigioso Instituto Garrido, de São Paulo, tem
horror aos expediente usado pelo advogado Fabiano e pela estudante A.
"Há o risco sério para os pacientes de essa engorda desencadear diabetes,
hipertensão, lesões nas artérias, entupimentos nas pequenas artérias,
problemas articulares, particularmente nos tornozelos, e afetar a coluna.
E esses danos podem ser definitivos, sem remissão nem depois do
emagrecimento", adverte Oliveira.
O médico sabe que há colegas seus (como foi o caso com o Fabiano)
indicando a dieta de engorda, o que ele considera um grave desvio ético:
"É o mesmo que um médico criar uma doença em seu paciente com o argumento
de que depois vai curá-lo."
Advogado quase morre após operação
Complicações decorrentes de cirurgia de obesidade
fizeram com que paciente ficasse 60 dias internado
"Eu sou um sobrevivente", diz o
advogado gaúcho Fabiano Gouveia, o mesmo que se submeteu à dieta de
engorda para fazer a cirurgia de obesidade. Nos planos originais, Fabiano
ficaria quatro dias no hospital e carregaria uma cicatriz minúscula na
barriga, graças a uma videolaparoscopia.
Fabiano ficou 60 dias no hospital, 20 dos quais no Centro de Terapia
Intensiva. "Disseram que eu tinha 3% de chances de sobreviver." O advogado
sofreu embolia pulmonar. Uma perfuração no intestino gerou um quadro de
peritonite. Três vezes, o abdôme do rapaz foi aberto para consertar o
estrago. Ficou uma cicatriz de 30 centímetros que se estende do meio do
peito até quase o púbis.
O médico também estreitou demais a saída do estômago de Fabiano para o
intestino. O estreitamento é feito para tornar a passagem do alimento mais
lenta, mantendo a sensação de estômago cheio, mas, no caso de Fabiano, o
"funil" ficou tão apertado que, durante nove meses, o rapaz só pôde
ingerir dieta líquida.
O advogado perdeu 71 quilos em cinco meses. Desnutrido, os cabelos
começaram a cair, assim como as unhas e três dentes.
Para recuperar a capacidade de se alimentar com comidas sólidas, Fabiano
teve de se submeter a um novo procedimento. Sedado, introduziram em seu
tubo digestivo um balãozinho que, depois de inflado, foi puxado até o
esôfago. O balão recuperou-lhe o diâmetro da saída do estômago.
Mesmo assim, carne, nunca mais. Nem moída. "Imagine o que é isso: um
gaúcho sem comer carne." E que, quando come outros alimentos, tem de
mastigar 40 vezes antes de engolir.
O médico Marcelo Roque de Oliveira diz que complicações graves como as de
Fabiano são raras, mas acontecem. "É por isso que a cirurgia só se
justifica nos casos em que os benefícios para o paciente suplantem com
folga os riscos a que ele se expõe."
Também o estreitamento exagerado da saída do estômago não é comum. Mas é
comum o sofrimento na adaptação à vida pós-operação. No site de
relacionamento Orkut, por exemplo, existe o grupo "Gastroplastia", de
operados e candidatos à cirurgia. Cinco membros dos 456 de "Gastroplastia"
apresentaram a mesma reclamação de Fabiano sobre perda de cabelos, unhas e
dentes.
Técnica Divide o
estômago
A estudante de enfermagem M.,
22, de São Paulo (ela não quer ser identificada), foi operada há dois
meses e meio. Com 1,78 m, chegou aos 120 quilos depois de voluntariamente
engordar 15 quilos para fazer a operação. Já emagreceu 30 quilos e está
feliz.
"Melhorou tudo em minha vida: o relacionamento com o marido, com os
amigos, comigo mesma", diz. Ela se submeteu à técnica cirúrgica mais comum
atualmente, conhecida como Capella.
A Capella consiste em dividir o estômago em duas partes. A maior é
desativada. A menor, mais próxima do esôfago, fica com capacidade de
apenas 20 mililitros, a mesma de uma xícara pequena de café. Na saída
desse estomaguinho, é colocado um anel de restrição, de modo que o
alimento passe lentamente. Isso prolonga a sensação de saciedade. Por fim,
esse estômago novo é ligado à porção inicial do intestino delgado.
Evita-se, assim, que o alimento passe pela maior parte do estômago e pelo
duodeno. Com isso, a digestão pelo suco gástrico é reduzida, facilitando o
emagrecimento. A operação, em 90% dos casos, resulta em perdas de até 40%
da massa corpórea, com poucas chances de reengorda.
Outra técnica bastante usada no Brasil é a do balão intragástrico, que
promete perdas de peso mais modestas (10% do peso total do paciente), mas
com a vantagem de ser um procedimento menos arriscado.
Vazio, o balão é introduzido no estômago por meio de um procedimento
semelhante à endoscopia digestiva e, em seguida, é inflado. "Ele causa uma
distensão em uma região específica do estômago onde existem receptores que
enviam mensagens ao cérebro que dão a sensação de saciedade", explica o
especialista em cirurgias do aparelho digestivo Carlos Haruo, da Unifesp
(Universidade Federal de São Paulo).
O prazo máximo de permanência do balão no estômago, segundo a literatura,
é de seis meses. Depois disso ele deve ser removido e o paciente corre o
risco de voltar a engordar, caso não passe por severa reeducação
alimentar.
A técnica também é usada como precursora da cirurgia mais radical. Muitos
candidatos à operação Capella, de tão obesos, não podem enfrentar o
bisturi sem antes emagrecer. Hipertensos e/ou diabéticos, correriam risco
excessivo.
Origem: Folha de São Paulo - 28/11/04 - Domingo
Contribuição enviada por Telma Pereira. |