Antes
acessível a poucos, a cirurgia de redução do estômago (ou
bariátrica) é cada vez mais comum. Tanto é que estima-se que hoje
sejam feitas no Brasil 15 mil operações do tipo por ano. Porém, não
se pode perder de vista que está longe de ser uma solução mágica. A
intervenção provoca uma grande mudança no aparelho digestivo,
instaurando no organismo condições para uma brutal perda de peso -
que pode chegar a 40% do total anterior -, mas não resolve outros
aspectos ligados à obesidade, muitos de origem psicológica e que
precisam ser encarados. "Esse procedimento é diferente de qualquer
outro, pois não acaba quando se retiram os pontos. O sucesso depende
também da força e do equilíbrio do paciente, que passará por uma
difícil fase de adaptação", afirma o cirurgião bariátrico Luiz
Vicente Berti, vice-presidente executivo da Sociedade Brasileira de
Cirurgia Bariátrica e médico do Instituto Garrido, de São Paulo
(SP). Assim, ao se avaliar riscos e dificuldades, não basta lembrar
de questões do campo estritamente médico, que envolvem a condição
cardiovascular e a anestesia, por exemplo. É preciso um olhar mais
global, que inclui necessariamente o acompanhamento de psicólogos
antes e depois. Afinal, independentemente da técnica empregada na
cirurgia, é fundamental que o paciente tenha consciência e esteja
preparado para o desafio a ser enfrentado.Apesar de o
emagrecimento acontecer de forma constante e, às vezes, parecer
rápido demais, o organismo leva um período de um ano e meio a dois
anos para se ajustar completamente às novas condições. "O processo
desencadeado com a intervenção exige, sim, muita disciplina do
cliente", frisa a psicóloga Isabel Cristina Paegle, que atua na
Clínica Gastro- Obeso, em São Paulo (SP). Ela sabe do que fala:
submetida a uma gastroplastia, eliminou 30 kg e hoje,
profissionalmente, orienta outras pessoas no pré e pós-operatório.
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Calcula -se que cerca de 15% das pessoas que reduziram
o estômago voltem a engordar
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A vida mudou - e como se
adaptar à nova?
No processo de acomodação à radical alteração orgânica, questões
de diversas ordens que também estavam relacionadas à obesidade vêm à
tona. Se para alguns começa uma época de comemoração pelos
resultados visíveis no corpo, para outros, já nos primeiros três
meses, conforme assinalou um estudo conduzido pelo Instituto
Garrido, inicia-se um período de irritabilidade e ansiedade por ter
de conviver com as refeições limitadas sem conferir ainda os
benefícios do tratamento.
Passado um ano do procedimento, os conflitos internos estão
sujeitos a tomar uma dimensão ainda maior se não forem observados e
cuidados adequadamente. Afinal, a gordura corporal, que antes
representava uma espécie de proteção, já não existe mais. Muitas das
manifestações psicológicas que ocorrem, inclusive, não são causadas
pela operação em si e, não raro, já existiam antes. Conheça melhor,
na página seguinte, os tipos de problemas de ordem emocional mais
comumente enfrentados após a cirurgia bariátrica.
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A construção do sucesso |
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| Quem elege a opção cirúrgica para afinar deve estar
consciente de que é apenas o começo. Veja aqui os cuidados
que garantem o êxito do processo Segundo estatísticas
mundiais, cerca de 15% dos obesos mórbidos que passam por
uma cirurgia de redução de estômago voltam a engordar. "O
paciente não recupera completamente o peso que tinha antes
da intervenção, mas alguns chegam a readquirir parte dos
quilos perdidos após um ano", avalia Roberto Rizzi,
cirurgião gastroenterologista do Hospital São Luiz, de São
Paulo (SP), que apresenta o fato como prova de que a
operação deve ser vista apenas como uma ferramenta a mais
que o médico tem para tratar o paciente. "Assim que acham
que estão bem, vários operados desistem de manter as
visitas ao consultório, ficando sujeitos a enfrentar,
sozinhos, os aspectos emocionais." Para que o resultado do
tratamento se mantenha, é preciso:
Ter consciência de que nem todos os problemas - sejam
pessoais ou profissionais - estão relacionados com a
obesidade e que, portanto, não basta emagrecer para
conquistar a felicidade.
Saber que os cuidados especiais com a alimentação, a
saúde e o equilíbrio emocional vão se estender ao longo da
vida.
Ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar formada
por cirurgião, endocrinologistas, psicólogos e
nutricionistas faz toda a diferença: assegura a eficácia
do procedimento e o controle futuro do peso.
Participar de reuniões de grupos de operados ajuda
muito. Será possível até ouvir depoimentos de quem voltou
a engordar e está em novo aprendizado. A troca de
experiências contribui na superação das dificuldades. |
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QUESTÕES A ENFRENTAR
Após a cirurgia, ficam evidentes aspectos
não-orgânicos associados à obesidade. Eles justificam o
acompanhamento de um terapeuta para preveni-los e superá-los.
DEPRESSÃO
Um sentimento de vazio e profunda tristeza caracterizam a
depressão. Nos obesos, esta dor interna é algumas vezes confundida
com o próprio desconforto causado pela gordura e se manifesta em
problemas de relacionamento, de imagem corporal negativa e baixa
auto-estima. "Muitos pacientes que apresentam esses sintomas no
pós-operatório têm histórico anterior", explica Isabel.
O fato que se coloca é que o obeso geralmente é uma pessoa que se
acostumou a usar a comida como uma válvula de escape para seus
conflitos emocionais. Como o mecanismo fica inviável depois da
redução do estômago, há condições para se instalar uma crise
depressiva. Dependendo da gravidade, ela será cuidada com terapia e,
se necessário, com o uso de medicação específica.
Com alguma freqüência, o quadro de profundo desânimo é
decorrência da ilusão de que todos os seus dissabores se resolverão
como conseqüência do emagrecimento. "Quando um homem está gordo e
desempregado, passa a achar que, depois de afinar, arrumará
trabalho. Se isso não acontece, a decepção é tanta que ele acaba
deprimido", diz Isabel.
MÁ ADAPTAÇÃO ÀS RESTRIÇÕES
O paciente operado atravessa várias etapas de limitação severa.
Na primeira e mais difícil, deverá se alimentar com água-de-coco,
gelatina diet, iogurte, leite desnatado, isotônicos e caldos, todos
itens líquidos ou pastosos. Para quem estava acostumado a comer, e
muito, a fase de adaptação à nova realidade pode parecer uma
tortura. Por isso é necessária muita disciplina ao longo do período
pós-operatório. Afinal, a pessoa que se submete a uma das cirurgias
bariátricas passa por uma restrição física que a obriga a ter
controle sobre a alimentação, o que significa calcular quantidades e
o balanceamento de nutrientes. "Nós orientamos os pacientes a
ingerirem 200 g por refeição, sendo 150 g de carne - para suprir a
necessidade de proteína. É preciso também aprender a mastigar bem o
alimento", explica Renata Bover Yagui, nutricionista da equipe do
Instituto Garrido.
Essa questão pode se revelar muito delicada. Por exemplo, em
comemorações, que são motivo de mesa farta, a pessoa sofre com a
obrigatoriedade de se manter firme no regime. "O que durante uma
dieta é opção vira caminho único, pois a comida em excesso não cabe
no novo estômago", lembra Renata. Para desabafar e buscar mudanças,
o acompanhamento especializado e a participação em reuniões de
grupos são fundamentais.
TRANSTORNOS ALIMENTARES
Um estudo da Universidade de Salzburgo, na Áustria, mostrou que
de 30 a 50% dos pacientes que passam pelo processo de redução de
estômago desenvolvem o hábito de vomitar depois de comerem em
excesso. Se isso virar uma ocorrência constante, é possível que se
instaure um quadro de bulimia. Motivando o distúrbio está o
comportamento do operado, que ainda tenta comer compulsivamente
embora seu corpo não tenha mais condições para isso. "Digo para os
recém-operados que suas refeições mudam do padrão churrascaria
rodízio para o de um restaurante francês", explica. O desafio, no
entanto, é internalizar completamente o parâmetro de refeição
adequado.
Assim como na depressão, esse tipo de transtorno pode ser
motivado por frustrações vindas da expectativa exagerada quanto às
mudanças que a cirurgia traria. Magoado, o indivíduo come para
descontar as angústias. Só que, ao se empanturrar, o estômago
reduzido faz com que se sinta mal e, então, acabe colocando tudo
para fora. Apesar de se parecer muito com o quadro bulímico
clássico, mais uma vez aqui soma-se à limitação física real, um
complicador a mais a ser equacionado.
SUBSTITUIÇÃO DA COMPULSÃO
É muito comum ver pessoas que continuam fumando porque têm medo
de engordar. Entre os muitos mecanismos por trás dessa relação e das
questões específicas da dependência da nicotina, a verdade é que o
ato de levar o cigarro à boca substitui em certa medida o impulso de
encher a mesma com comida. Após a cirurgia do estômago, esse mesmo
artifício ocorre. Não precisa ser com cigarro, mas quando se vêem
privados do prazer da gula, os ex-gordinhos se refugiam em outros
tipos de "vícios" para tentar acalmar a sensação de vazio interior.
"A compulsão é apenas deslocada, mas continua lá. É uma tensão que
precisa ser aliviada", explica Isabel.
Dessa forma, alguns se entregam aos doces. É o caso de sorvetes e
leite condensado, com sua composição química mais simples e menos
fibrosa do que frutas, verduras e carnes, são ingeridos como forma
de driblar as restrições - estratégia que compromete o pleno sucesso
do tratamento. A compulsão às vezes envereda ainda por caminhos mais
sinuosos e perigosos, levando ao consumo de álcool e drogas. Uma
pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade da Flórida (EUA)
constatou que o álcool e outros tóxicos ativam no cérebro os mesmos
pontos relacionados à sensação de satisfação e de felicidade
ativados pela comida. Ou seja, a partir do momento que uma pessoa se
sente impossibilitada de se alimentar à vontade, corre o risco de
querer estimular seu cérebro de outras maneiras para que este
continue produzindo os hormônios do bem-estar, como a serotonina e a
dopamina. No caso das bebidas alcoólicas, junta-se o fato de que
elas ainda são altamente calóricas, dificultando o emagrecimento.
Existem ainda pessoas que se tornam viciadas em jogos, sexo ou até
em compras, manifestações que têm a ver com a substituição do antigo
hábito de se fartar.