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25/05/05 - EXGORDO - Matéria da Revista Dieta Já de Maio de 2005

MUITO ALÉM DA MESA DE CIRURGIA
O aconselhamento psicológico é essencial para o sucesso do emagrecimento após a operação de redução de estômago. Entenda por quê:
 
Antes acessível a poucos, a cirurgia de redução do estômago (ou bariátrica) é cada vez mais comum. Tanto é que estima-se que hoje sejam feitas no Brasil 15 mil operações do tipo por ano. Porém, não se pode perder de vista que está longe de ser uma solução mágica. A intervenção provoca uma grande mudança no aparelho digestivo, instaurando no organismo condições para uma brutal perda de peso - que pode chegar a 40% do total anterior -, mas não resolve outros aspectos ligados à obesidade, muitos de origem psicológica e que precisam ser encarados. "Esse procedimento é diferente de qualquer outro, pois não acaba quando se retiram os pontos. O sucesso depende também da força e do equilíbrio do paciente, que passará por uma difícil fase de adaptação", afirma o cirurgião bariátrico Luiz Vicente Berti, vice-presidente executivo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e médico do Instituto Garrido, de São Paulo (SP). Assim, ao se avaliar riscos e dificuldades, não basta lembrar de questões do campo estritamente médico, que envolvem a condição cardiovascular e a anestesia, por exemplo. É preciso um olhar mais global, que inclui necessariamente o acompanhamento de psicólogos antes e depois. Afinal, independentemente da técnica empregada na cirurgia, é fundamental que o paciente tenha consciência e esteja preparado para o desafio a ser enfrentado.

Apesar de o emagrecimento acontecer de forma constante e, às vezes, parecer rápido demais, o organismo leva um período de um ano e meio a dois anos para se ajustar completamente às novas condições. "O processo desencadeado com a intervenção exige, sim, muita disciplina do cliente", frisa a psicóloga Isabel Cristina Paegle, que atua na Clínica Gastro- Obeso, em São Paulo (SP). Ela sabe do que fala: submetida a uma gastroplastia, eliminou 30 kg e hoje, profissionalmente, orienta outras pessoas no pré e pós-operatório.

Calcula -se que cerca de 15% das pessoas que reduziram o estômago voltem a engordar

A vida mudou - e como se adaptar à nova?

No processo de acomodação à radical alteração orgânica, questões de diversas ordens que também estavam relacionadas à obesidade vêm à tona. Se para alguns começa uma época de comemoração pelos resultados visíveis no corpo, para outros, já nos primeiros três meses, conforme assinalou um estudo conduzido pelo Instituto Garrido, inicia-se um período de irritabilidade e ansiedade por ter de conviver com as refeições limitadas sem conferir ainda os benefícios do tratamento.

Passado um ano do procedimento, os conflitos internos estão sujeitos a tomar uma dimensão ainda maior se não forem observados e cuidados adequadamente. Afinal, a gordura corporal, que antes representava uma espécie de proteção, já não existe mais. Muitas das manifestações psicológicas que ocorrem, inclusive, não são causadas pela operação em si e, não raro, já existiam antes. Conheça melhor, na página seguinte, os tipos de problemas de ordem emocional mais comumente enfrentados após a cirurgia bariátrica.

A construção do sucesso
 
Quem elege a opção cirúrgica para afinar deve estar consciente de que é apenas o começo. Veja aqui os cuidados que garantem o êxito do processo

Segundo estatísticas mundiais, cerca de 15% dos obesos mórbidos que passam por uma cirurgia de redução de estômago voltam a engordar. "O paciente não recupera completamente o peso que tinha antes da intervenção, mas alguns chegam a readquirir parte dos quilos perdidos após um ano", avalia Roberto Rizzi, cirurgião gastroenterologista do Hospital São Luiz, de São Paulo (SP), que apresenta o fato como prova de que a operação deve ser vista apenas como uma ferramenta a mais que o médico tem para tratar o paciente. "Assim que acham que estão bem, vários operados desistem de manter as visitas ao consultório, ficando sujeitos a enfrentar, sozinhos, os aspectos emocionais." Para que o resultado do tratamento se mantenha, é preciso:

 Ter consciência de que nem todos os problemas - sejam pessoais ou profissionais - estão relacionados com a obesidade e que, portanto, não basta emagrecer para conquistar a felicidade.
 Saber que os cuidados especiais com a alimentação, a saúde e o equilíbrio emocional vão se estender ao longo da vida.
 Ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar formada por cirurgião, endocrinologistas, psicólogos e nutricionistas faz toda a diferença: assegura a eficácia do procedimento e o controle futuro do peso.
 Participar de reuniões de grupos de operados ajuda muito. Será possível até ouvir depoimentos de quem voltou a engordar e está em novo aprendizado. A troca de experiências contribui na superação das dificuldades.

 
 

QUESTÕES A ENFRENTAR

Após a cirurgia, ficam evidentes aspectos não-orgânicos associados à obesidade. Eles justificam o acompanhamento de um terapeuta para preveni-los e superá-los.

DEPRESSÃO

Um sentimento de vazio e profunda tristeza caracterizam a depressão. Nos obesos, esta dor interna é algumas vezes confundida com o próprio desconforto causado pela gordura e se manifesta em problemas de relacionamento, de imagem corporal negativa e baixa auto-estima. "Muitos pacientes que apresentam esses sintomas no pós-operatório têm histórico anterior", explica Isabel.

O fato que se coloca é que o obeso geralmente é uma pessoa que se acostumou a usar a comida como uma válvula de escape para seus conflitos emocionais. Como o mecanismo fica inviável depois da redução do estômago, há condições para se instalar uma crise depressiva. Dependendo da gravidade, ela será cuidada com terapia e, se necessário, com o uso de medicação específica.

Com alguma freqüência, o quadro de profundo desânimo é decorrência da ilusão de que todos os seus dissabores se resolverão como conseqüência do emagrecimento. "Quando um homem está gordo e desempregado, passa a achar que, depois de afinar, arrumará trabalho. Se isso não acontece, a decepção é tanta que ele acaba deprimido", diz Isabel.

MÁ ADAPTAÇÃO ÀS RESTRIÇÕES

O paciente operado atravessa várias etapas de limitação severa. Na primeira e mais difícil, deverá se alimentar com água-de-coco, gelatina diet, iogurte, leite desnatado, isotônicos e caldos, todos itens líquidos ou pastosos. Para quem estava acostumado a comer, e muito, a fase de adaptação à nova realidade pode parecer uma tortura. Por isso é necessária muita disciplina ao longo do período pós-operatório. Afinal, a pessoa que se submete a uma das cirurgias bariátricas passa por uma restrição física que a obriga a ter controle sobre a alimentação, o que significa calcular quantidades e o balanceamento de nutrientes. "Nós orientamos os pacientes a ingerirem 200 g por refeição, sendo 150 g de carne - para suprir a necessidade de proteína. É preciso também aprender a mastigar bem o alimento", explica Renata Bover Yagui, nutricionista da equipe do Instituto Garrido.

Essa questão pode se revelar muito delicada. Por exemplo, em comemorações, que são motivo de mesa farta, a pessoa sofre com a obrigatoriedade de se manter firme no regime. "O que durante uma dieta é opção vira caminho único, pois a comida em excesso não cabe no novo estômago", lembra Renata. Para desabafar e buscar mudanças, o acompanhamento especializado e a participação em reuniões de grupos são fundamentais.

TRANSTORNOS ALIMENTARES

Um estudo da Universidade de Salzburgo, na Áustria, mostrou que de 30 a 50% dos pacientes que passam pelo processo de redução de estômago desenvolvem o hábito de vomitar depois de comerem em excesso. Se isso virar uma ocorrência constante, é possível que se instaure um quadro de bulimia. Motivando o distúrbio está o comportamento do operado, que ainda tenta comer compulsivamente embora seu corpo não tenha mais condições para isso. "Digo para os recém-operados que suas refeições mudam do padrão churrascaria rodízio para o de um restaurante francês", explica. O desafio, no entanto, é internalizar completamente o parâmetro de refeição adequado.

Assim como na depressão, esse tipo de transtorno pode ser motivado por frustrações vindas da expectativa exagerada quanto às mudanças que a cirurgia traria. Magoado, o indivíduo come para descontar as angústias. Só que, ao se empanturrar, o estômago reduzido faz com que se sinta mal e, então, acabe colocando tudo para fora. Apesar de se parecer muito com o quadro bulímico clássico, mais uma vez aqui soma-se à limitação física real, um complicador a mais a ser equacionado.

SUBSTITUIÇÃO DA COMPULSÃO

É muito comum ver pessoas que continuam fumando porque têm medo de engordar. Entre os muitos mecanismos por trás dessa relação e das questões específicas da dependência da nicotina, a verdade é que o ato de levar o cigarro à boca substitui em certa medida o impulso de encher a mesma com comida. Após a cirurgia do estômago, esse mesmo artifício ocorre. Não precisa ser com cigarro, mas quando se vêem privados do prazer da gula, os ex-gordinhos se refugiam em outros tipos de "vícios" para tentar acalmar a sensação de vazio interior. "A compulsão é apenas deslocada, mas continua lá. É uma tensão que precisa ser aliviada", explica Isabel.

Dessa forma, alguns se entregam aos doces. É o caso de sorvetes e leite condensado, com sua composição química mais simples e menos fibrosa do que frutas, verduras e carnes, são ingeridos como forma de driblar as restrições - estratégia que compromete o pleno sucesso do tratamento. A compulsão às vezes envereda ainda por caminhos mais sinuosos e perigosos, levando ao consumo de álcool e drogas. Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade da Flórida (EUA) constatou que o álcool e outros tóxicos ativam no cérebro os mesmos pontos relacionados à sensação de satisfação e de felicidade ativados pela comida. Ou seja, a partir do momento que uma pessoa se sente impossibilitada de se alimentar à vontade, corre o risco de querer estimular seu cérebro de outras maneiras para que este continue produzindo os hormônios do bem-estar, como a serotonina e a dopamina. No caso das bebidas alcoólicas, junta-se o fato de que elas ainda são altamente calóricas, dificultando o emagrecimento. Existem ainda pessoas que se tornam viciadas em jogos, sexo ou até em compras, manifestações que têm a ver com a substituição do antigo hábito de se fartar.

Fonte Original desta matéria em : http://dietaja.uol.com.br/edicoes/104/artigo7854-1.asp