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Preconceitos racial e social estão na
base da estigmatização da obesidade
Quase todos os dias, ao que parece, há um novo estudo alarmante
sobre os perigos do excesso de peso ou uma nova teoria sobre
suas causas e curas. Nesta semana, a VH1 apresentou um programa
de realidade chamado "Flab to Fab", no qual mulheres gordas
recebem uma equipe de treinadores que deve ajudá-las a entrar em
forma.
Entretanto, um grupo crescente de historiadores e críticos
culturais que estudam o tema diz que essa obsessão se baseia
mais na moralidade do que na ciência. Posturas insidiosas sobre
política, sexo, raça ou classe estão no centro do frenesi sobre
obesidade, dizem os acadêmicos, que compraram o movimento aos
julgamentos das bruxas de Salem, ao macarthismo e até o
movimento eugenista. Há muito que o peso de uma pessoa e sua
moralidade estão intimamente associados, ao menos no Ocidente.
"Estamos vivendo um pânico moral sobre a obesidade. As pessoas
estão dizendo: 'A gordura é a maldição da civilização
ocidental'", disse Sander L. Gilman, professor emérito de artes
liberais, ciências e medicina da Universidade de Illinois em
Chicago. No mês passado, ele publicou "Fat Boys: A Slim Book"
(meninos gordos: um livro magro), pela University of Nebraska
press.
Agora, a preocupação com obesidade "está gerando uma nova onda
de estudos acadêmicos", diz Peter Stearns, historiador. Esses
pesquisadores não condenam a obesidade mórbida, mas
estudam como a definição de obesidade e seu significado mudaram
durante a história, freqüentemente de forma arbitrária.
Stearns, professor de história e reitor da Universidade George
Mason, escreveu que o excesso de peso já foi "sinal de saúde, em
uma época em que as piores doenças, como a tuberculose, deixavam
a pessoa magra". Ele identifica o final do século 19 e o começo
do século 20 como a época em que a obesidade equiparou-se à
deficiência moral.
Em 1914, um artigo da revista "Living Age", por exemplo,
afirmou: "o excesso de peso hoje é visto como uma indiscrição e
quase um crime". Essa é uma citação de Stearns em um ensaio para
a coleção a ser publicada pela Palgrave Macmillan em novembro,
Cultures of the Abdomem" (culturas do abdome), editada por
Christopher E. Forth, palestrante da Universidade Nacional da
Austrália, e Ana Carden-Coyne, da Universidade de Manchester,
Reino Unido. Durante a Primeira Guerra Mundial, algumas revistas
populares de fato diziam que comer demais e engordar era
antipatriótico, presumivelmente por causa de preocupações com
falta de comida, escreve Stearns.
Em "Fat Boys", Gilman descreve como o excesso de peso era
associado com os afluentes e aristocratas, enquanto hoje é
associado com os pobres e seus hábitos alimentares supostamente
ruins. Louis XIV colocava enchimento na roupa para parecer mais
imponente. Durante a Revolução Francesa, a obesidade inspirou um
grito de guerra: "O povo contra os gordos", diz ele. Antes, os
gordos eram tidos como hiper-sensuais, como Falstaff; agora, são
vistos como assexuados, como Papai Noel.
O primeiro livro popular de dieta moderno, "Letter on Corpulence
Addressed to the Public" (carta sobre corpulência destinada ao
público), escrito por William Banting, coveiro, surgiu em 1863.
Banting escreveu que, quando era gordo, era considerado um
parasita inútil. Ele fez um regime e perdeu 20 kg. "Honestamente
posso afirmar que me sinto restaurado na saúde 'do corpo e da
mente'", escreveu. Gilman observa que a palavra "Banting"
tornou-se sinônimo de fazer dieta. Na opinião de Stearns, as
mudanças de atitude no século 19 em relação à obesidade foram
uma reação de culpa diante da nova abundância de alimentos, a
cultura de consumo e o aumento de hábitos de trabalho
sedentários. "Acho que não ficamos à vontade com isso, por
insegurança e heranças religiosas", disse em entrevista. "Um
objeto para a prática do autocontrole, como uma dieta, ajudou a
expressar e reconciliar preocupações morais sobre a afluência do
consumidor", escreve Stearns; a dieta se tornou uma nova espécie
de puritanismo.
Outros acadêmicos contemporâneos vêem um lado mais perigoso na
atual campanha contra o peso. Paul Campos, professor de direito
da Universidade de Colorado, argumenta que a obesidade é usada
como instrumento de discriminação. Ele cita similaridades
perturbadoras com o movimento de eugenia, com sua ênfase em
"melhorar" a espécie.
A obesidade nos EUA é, "primariamente, uma questão política e
cultural", escreve Campos em seu novo livro, "The Obesity Myth"
(o mito da obesidade), que deve ser lançado neste mês. "A guerra
contra os gordos é única na história americana, pois representa
a primeira tentativa orquestrada de transformar a vasta maioria
dos cidadãos em párias sociais, motivo de pena e chacota",
argumenta.No que poderá ser sua alegação mais controversa,
Campos escreve: "Contrário a quase tudo que você já ouviu, o
peso não é uma boa forma de se avaliar o estado de saúde de uma
pessoa. De fato, uma pessoa moderadamente maior provavelmente é
mais saudável do que uma pessoa esbelta e sedentária". Para
reforçar seu argumento, ele cita vários estudos, inclusive um
publicado pelo Cooper Institute, instituição privada em Dallas.
Campos discorda com a maior parte dos especialistas médicos que
advertem para os perigos de ser gordo. "Não há evidências de que
emagrecer significativamente por longo prazo é bom para a saúde
e há grande quantidade de evidências de que a perda de peso em
curto prazo seguida de recuperação do peso (padrão observado na
maior parte das dietas) é prejudicial à saúde".
Ele disse em entrevista recente: "A atual histeria sobre massa
corporal e seus efeitos supostamente devastadores à saúde está
criando uma estratificação da sociedade, em termos de poder e
privilégio, baseada em um conceito cientificamente falacioso da
saúde. O que estamos vendo, com esse pânico moral sobre o peso,
de muitas formas, é comparável ao que vimos no movimento de
eugenia nos anos 20."
Kathleen LeBesco, professora de comunicação da Faculdade
Marymount Manhattan, também afirma que a raiz da atual mania de
magreza é um esforço para estigmatizar certos grupos. Em um novo
livro, "Revolting Bodies" (corpos revoltantes), LeBesco escreve
que mulheres afro-americanas e méxico-americanas são
particularmente rotuladas de obesas na cultura contemporânea. "O
discurso sobre o excesso de peso quer mostrar o indivíduo gordo
como doente", disse em entrevista, também comparando a
tendência com a eugenia.
Ela se refere a um estudo dos Centros de Controle de Doenças, no
qual as maiores proporções de pessoas obesas são mulheres dessas
origens. "Será coincidência que as pessoas desses dois grupos
estigmatizados étnica e racialmente, além do sexo, têm
maior chance de ser obesas?" escreve LeBesco. Ela também diz que
a indústria da dieta está, cada vez mais, tentando se concentrar
nas minorias. Ela cita com desaprovação um estudo do Instituto
Nacional de Coração, Pulmão e Sangue. O estudo concluiu que a
postura positiva que as mulheres afro-americanas têm sobre seu
corpo pode prejudicar seu emagrecimento.
Segundo o estudo, esses sentimentos de autoconfiança "podem ser
uma barreira no trabalho com mulheres afro-americanas, que não
necessariamente se consideram feias e gordas e podem valorizar
menos aspectos cosméticos da perda de peso."
Stearns estudou como as mulheres gradualmente se tornaram alvos
de campanhas de obesidade. A feminista do século 19 Elizabeth
Cady Stanton era elogiada por sua "figura madura", diz ele.
"Líderes feministas mais magras eram reprovadas",
escreve. A razão do peso da Miss EUA em relação a sua altura
começou a cair depois de 1920. A ênfase na magreza nas mulheres
não foi acidental, diz Stearns. Ao mesmo tempo em que as
mulheres estavam sendo estimuladas a perder peso, o ideal da
maternidade estava declinando, e as mulheres foram capazes pela
primeira vez de expressar um apetite pelo sexo. "Fazer dieta era
uma forma, novamente, de expressar virtude e autocontrole,
mesmo em um ambiente sexual em mudança", escreve.
Apesar de haver muitas causas para a obesidade -comida mais
barata, marketing agressivo, maiores porções nos restaurantes e,
é claro, hábitos cada vez mais sedentários- Stearns diz que
engordar ainda é visto como uma questão moral, "um sinal de
preguiça, de falta de controle". Ele observa que os franceses
tiveram mais sucesso em emagrecer que os americanos, em parte,
diz ele, porque o emagrecimento na França baseia-se na estética
e não na moralidade. Stearns insiste que não está promovendo a
obesidade, mas argumentando que fazer as pessoas se sentirem
culpadas por serem gordas é uma forma inútil de controle de
peso. Ao descrever o etos contemporâneo, ele disse: "Se você não
consegue emagrecer, você é mau. É uma carga muito grande. Com
essa pressão adicional, é muito mais provável que você acabe
dizendo: 'Dane-se! Vou comprar sorvete. Sou uma pessoa tão má
que preciso de consolo'." |