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MATÉRIAS - THE NEW YORK TIMES - 01/05/2004
Batalha contra peso mostra gordos como vilões

Preconceitos racial e social estão na base da estigmatização da obesidade

Quase todos os dias, ao que parece, há um novo estudo alarmante sobre os perigos do excesso de peso ou uma nova teoria sobre suas causas e curas. Nesta semana, a VH1 apresentou um programa de realidade chamado "Flab to Fab", no qual mulheres gordas recebem uma equipe de treinadores que deve ajudá-las a entrar em forma.

Entretanto, um grupo crescente de historiadores e críticos culturais que estudam o tema diz que essa obsessão se baseia mais na moralidade do que na ciência. Posturas insidiosas sobre política, sexo, raça ou classe estão no centro do frenesi sobre obesidade, dizem os acadêmicos, que compraram o movimento aos julgamentos das bruxas de Salem, ao macarthismo e até o movimento eugenista. Há muito que o peso de uma pessoa e sua moralidade estão intimamente associados, ao menos no Ocidente. "Estamos vivendo um pânico moral sobre a obesidade. As pessoas estão dizendo: 'A gordura é a maldição da civilização ocidental'", disse Sander L. Gilman, professor emérito de artes liberais, ciências e medicina da Universidade de Illinois em Chicago.  No mês passado, ele publicou "Fat Boys: A Slim Book" (meninos gordos: um livro magro), pela University of Nebraska press.

Agora, a preocupação com obesidade "está gerando uma nova onda de estudos acadêmicos", diz Peter Stearns, historiador. Esses pesquisadores não condenam a obesidade mórbida, mas estudam como a definição de obesidade e seu significado mudaram durante a história, freqüentemente de forma arbitrária.

Stearns, professor de história e reitor da Universidade George Mason, escreveu que o excesso de peso já foi "sinal de saúde, em uma época em que as piores doenças, como a tuberculose, deixavam a pessoa magra". Ele identifica o final do século 19 e o começo do século 20 como a época em que a obesidade equiparou-se à deficiência moral.

Em 1914, um artigo da revista "Living Age", por exemplo, afirmou: "o excesso de peso hoje é visto como uma indiscrição e quase um crime". Essa é uma citação de Stearns em um ensaio para a coleção a ser publicada pela Palgrave Macmillan em novembro, Cultures of the Abdomem" (culturas do abdome), editada por Christopher E. Forth, palestrante da Universidade Nacional da Austrália, e Ana Carden-Coyne, da Universidade de Manchester, Reino Unido. Durante a Primeira Guerra Mundial, algumas revistas populares de fato diziam que comer demais e engordar era antipatriótico, presumivelmente por causa de preocupações com falta de comida, escreve Stearns.

Em "Fat Boys", Gilman descreve como o excesso de peso era associado com os afluentes e aristocratas, enquanto hoje é associado com os pobres e seus hábitos alimentares supostamente ruins. Louis XIV colocava enchimento na roupa para parecer mais imponente. Durante a Revolução Francesa, a obesidade inspirou um grito de guerra: "O povo contra os gordos", diz ele. Antes, os gordos eram tidos como hiper-sensuais, como Falstaff; agora, são vistos como assexuados, como Papai Noel.

O primeiro livro popular de dieta moderno, "Letter on Corpulence Addressed to the Public" (carta sobre corpulência destinada ao público), escrito por William Banting, coveiro, surgiu em 1863. Banting escreveu que, quando era gordo, era considerado um parasita inútil. Ele fez um regime e perdeu 20 kg. "Honestamente posso afirmar que me sinto restaurado na saúde 'do corpo e da mente'", escreveu. Gilman observa que a palavra "Banting" tornou-se sinônimo de fazer dieta. Na opinião de Stearns, as mudanças de atitude no século 19 em relação à obesidade foram uma reação de culpa diante da nova abundância de alimentos, a cultura de consumo e o aumento de hábitos de trabalho sedentários. "Acho que não ficamos à vontade com isso, por insegurança e heranças religiosas", disse em entrevista. "Um objeto para a prática do autocontrole, como uma dieta, ajudou a expressar e reconciliar preocupações morais sobre a afluência do consumidor", escreve Stearns; a dieta se tornou uma nova espécie de puritanismo.

Outros acadêmicos contemporâneos vêem um lado mais perigoso na atual campanha contra o peso. Paul Campos, professor de direito da Universidade de Colorado, argumenta que a obesidade é usada como instrumento de discriminação. Ele cita similaridades perturbadoras com o movimento de eugenia, com sua ênfase em "melhorar" a espécie.

A obesidade nos EUA é, "primariamente, uma questão política e cultural", escreve Campos em seu novo livro, "The Obesity Myth" (o mito da obesidade), que deve ser lançado neste mês. "A guerra contra os gordos é única na história americana, pois representa a primeira tentativa orquestrada de transformar a vasta maioria dos cidadãos em párias sociais, motivo de pena e chacota", argumenta.No que poderá ser sua alegação mais controversa, Campos escreve: "Contrário a quase tudo que você já ouviu, o peso não é uma boa forma de se avaliar o estado de saúde de uma pessoa. De fato, uma pessoa moderadamente maior provavelmente é mais saudável do que uma pessoa esbelta e sedentária". Para reforçar seu argumento, ele cita vários estudos, inclusive um publicado pelo Cooper Institute, instituição privada em Dallas.

Campos discorda com a maior parte dos especialistas médicos que advertem para os perigos de ser gordo. "Não há evidências de que emagrecer significativamente por longo prazo é bom para a saúde e há grande quantidade de evidências de que a perda de peso em curto prazo seguida de recuperação do peso (padrão observado na maior parte das dietas) é prejudicial à saúde".

Ele disse em entrevista recente: "A atual histeria sobre massa corporal e seus efeitos supostamente devastadores à saúde está criando uma estratificação da sociedade, em termos de poder e privilégio, baseada em um conceito cientificamente falacioso da saúde. O que estamos vendo, com esse pânico moral sobre o peso, de muitas formas, é comparável ao que vimos no movimento de eugenia nos anos 20."

Kathleen LeBesco, professora de comunicação da Faculdade Marymount Manhattan, também afirma que a raiz da atual mania de magreza é um esforço para estigmatizar certos grupos. Em um novo livro, "Revolting Bodies" (corpos revoltantes), LeBesco escreve que mulheres afro-americanas e méxico-americanas são particularmente rotuladas de obesas na cultura contemporânea. "O discurso sobre o excesso de peso quer mostrar o indivíduo gordo como doente", disse em entrevista,  também comparando a tendência com a eugenia.

Ela se refere a um estudo dos Centros de Controle de Doenças, no qual as maiores proporções de pessoas obesas são mulheres dessas origens. "Será coincidência que as pessoas desses dois grupos estigmatizados étnica e racialmente, além do sexo, têm
maior chance de ser obesas?" escreve LeBesco. Ela também diz que a indústria da dieta está, cada vez mais, tentando se concentrar nas minorias. Ela cita com desaprovação um estudo do Instituto Nacional de Coração,  Pulmão e Sangue. O estudo concluiu que a postura positiva que as mulheres afro-americanas têm sobre seu corpo pode  prejudicar seu emagrecimento.


Segundo o estudo, esses sentimentos de autoconfiança "podem ser uma barreira no trabalho com mulheres afro-americanas, que não necessariamente se consideram feias e gordas e podem  valorizar menos aspectos cosméticos da perda de peso."
Stearns estudou como as mulheres gradualmente se tornaram  alvos de campanhas de obesidade. A feminista do século 19 Elizabeth Cady Stanton era elogiada por sua "figura madura", diz ele. "Líderes feministas mais magras eram reprovadas",
escreve. A razão do peso da Miss EUA em relação a sua altura começou a cair depois de 1920. A ênfase na magreza nas mulheres não foi acidental, diz Stearns. Ao mesmo tempo em que as mulheres estavam sendo estimuladas a perder peso, o ideal da maternidade estava declinando, e as mulheres foram capazes pela primeira vez de expressar um apetite pelo sexo. "Fazer dieta era uma forma,  novamente, de expressar virtude e autocontrole, mesmo em um ambiente sexual em mudança", escreve.

Apesar de haver muitas causas para a obesidade -comida mais barata, marketing agressivo, maiores porções nos restaurantes e, é claro, hábitos cada vez mais sedentários- Stearns diz que engordar ainda é visto como uma questão moral, "um sinal de preguiça, de falta de controle". Ele observa que os franceses tiveram mais sucesso em emagrecer que os americanos, em parte, diz ele, porque o emagrecimento na França baseia-se na estética e não na moralidade. Stearns insiste que não está promovendo a obesidade, mas argumentando que fazer as pessoas se sentirem culpadas por serem gordas é uma forma inútil de controle de peso. Ao descrever o etos contemporâneo, ele disse: "Se você não consegue emagrecer, você é mau. É uma carga muito grande. Com essa pressão adicional, é muito mais provável que você acabe  dizendo: 'Dane-se! Vou comprar sorvete. Sou uma pessoa tão má que preciso de consolo'."