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O aumento da
procura por cirurgia de redução do estômago virou caso de saúde
pública. Médicos e psicólogos estão preocupados com a quantidade de
pessoas que não conseguem superar a compulsão e se adaptar à vida de
‘‘magro’’. O Ministério da Saúde (MS) quer combater o problema na
origem e combater as causas da obesidade. Desde setembro de 2004 um
grupo de trabalho (GT) discute o Plano Nacional de Atenção à
Obesidade. Em fevereiro, o ministério vai ampliar a questão e propor a
criação de um grupo interministerial para tratar do assunto.
Luiz Vicente Berti,
da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica (SBCB), adverte que a
cirurgia de redução do estômago representa apenas 30% do tratamento.
‘‘Já atendi caso de quem fez a cirurgia, emagreceu, ficou bem,
continuou a perder peso e começou a se incomodar’’. A mudança dos
hábitos alimentares e físicos é o maior desafio. ‘‘É preciso uma
política interministerial. Este ano os ministérios da Educação,
Agricultura, Esportes e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
devem se juntar a nós em busca de uma solução’’, diz José Luiz
Nogueira, consultor técnico do Ministério da Saúde na área de Alta
Complexidade.
A psicóloga Fátima
Costa atua na avaliação psicológica para cirurgia bariátrica e chama a
atenção para as causas emocionais da obesidade. ‘‘Os riscos físicos
são os mesmos que qualquer cirurgia, o problema é o emocional. A
compulsão por comida pode ser substituída por outros vícios, como jogo
e álcool, e o referencial de vida muda. A pessoa perde a identidade.’’
Integrante do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, Fátima diz
que, por conta disso, um grupo acadêmico da Universidade de São Paulo
discute a revisão do laudo psicológico.
Ex-obesa, a
psicóloga de 33 anos vivenciou as mudanças emocionais do
pós-operatório. Há três anos, com 134 quilos, fez a cirurgia. Hoje
pesa 74 e ainda não se acostumou com as cantadas dos homens na rua.
‘‘A mudança de valores é grande. Você se pergunta: quem sou eu? Meu
marido começou a ter ciúmes e o casamento acabou’’, conta. Costa fazia
terapia há um ano antes da cirurgia e até hoje não parou.
A portaria que
institui o tratamento cirúrgico de redução do estômago, a
gastroplastia, está sendo reformulada. ‘‘O paciente precisa de mais
acompanhamento no pré e no pós-operatório’’, avalia José Luiz
Nogueira, do Ministério da Saúde. Segundo ele, é preciso discutir
questões que surgiram depois da regulamentação do tratamento, como as
conseqüências psíquicas, por exemplo.
Na fila
Maria Madalena de Oliveira, 45 anos, moradora de Santa Maria (DF),
perdeu a conta de quantas dietas e tratamentos já fez. Agora, procura
ajuda financeira para pagar a cirurgia de redução de estômago. Pesando
170 quilos, ela cansou de aguardar uma oportunidade na rede pública de
saúde. ‘‘Há seis anos estou na fila do Hospital de Base e do Hospital
Universitário de Brasília. Entrei na Justiça, mas não posso esperar’’,
lamenta.
Gorda desde
criança, Lena, como gosta de ser chamada, carrega um histórico de
lutas e perdas por causa da obesidade. Apesar disso, não se cansa.
‘‘Já consegui o médico para fazer minha cirurgia de graça. Agora
preciso arranjar pelo menos R$ 12 mil para pagar o hospital e a equipe
médica.’’
Vem tarde
Embora as complicações pós-operatórias sejam mais de cunho
psicológico, a Coordenação de Saúde Mental vai integrar a equipe do
ministério que trabalha na mudança das regras para o tratamento
cirúrgico só a partir de fevereiro. Os casos de complicações
pós-cirúrgicas chegaram ao governo por meio da classe médica e do
Controle e Avaliação de Procedimentos feito por estados, municípios e
pelo próprio ministério.
Instituições civis
que tratam de obesidade e cirurgia bariátrica — redução do estômago —
foram convidadas pelo ministério a compor o GT e repensar a portaria.
A Associação Brasileira Para o Estudo da Obesidade (Abeso) e a
Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica (SBCB) fazem parte do
grupo de trabalho. Berti, representante da SBCB, afirma que São Paulo
tem 220 mil pacientes candidatos à redução do estômago. Existem
atualmente, no Brasil, cerca de um milhão de obesos mórbidos. ‘‘Se não
tratarmos da prevenção na base, a infância, esse número pode subir
para até sete milhões em 15 anos.’’
Tira-dúvidas
A cirurgia
Como se calcula o Índice de Massa Corpórea (IMC)?
Dividindo o peso da pessoa por duas vezes a altura dela. Veja exemplo
na tabela.
Calcule seu imc
Quando o
paciente tem indicação cirúrgica?
Se o IMC do paciente for igual ou acima de
40, se ele tiver mais de dois anos de obesidade e se outros
tratamentos não resolveram. A cirurgia é recomendável também para quem
tem IMC igual ou maior que 35 e tiver doenças em conseqüência da
obesidade, como diabetes, pressão alta e apnéia.
Quando o
paciente tem contra-indicação cirúrgica?
Se tiver histórico ou tendência ao alcoolismo. Sofrer de doenças
do fígado, rins ou psiquiátricas e tiver depressão endógena —
fisiológica, salvo em caso de parecer psiquiátrico favorável à
operação. |