04/05/05
- EXGORDONEWS - Matéria da Folha de São Paulo
INFÂNCIA NA BALANÇA |
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Até crianças já sofrem
redução de estômago
Obesidade leva pais a optarem por cirurgia em seus filhos de até
11 anos; prática é polêmica entre médicos
O crescente aumento de casos de obesidade
infantil no país está criando um cenário preocupante: crianças na
fase de crescimento -com até 11 anos- estão sendo submetidas a
cirurgias de redução de estômago para perder peso.
Dois cirurgiões gástricos paulistas dizem ter feito 120 cirurgias
bariátricas em crianças e jovens de 11 a 17 anos, a maioria nos
últimos dois anos. Não há estatísticas oficiais sobre essa cirurgia
na infância nem estudos sobre a segurança da técnica nesse público.
Para pediatras e endocrinologistas ouvidos pela Folha, a cirurgia é
"temerária" antes do fim da fase de crescimento -em geral, a partir
dos 14 anos nas meninas, e dos 15 anos nos meninos- porque pode
afetar a formação óssea.
Pesquisa da LatinPanel apontou que 35% dos jovens entre 7 e 12 anos
estão acima do peso no Brasil. Foram ouvidas 25 mil pessoas. Em São
Paulo, o Centro de Adolescência da Unifesp registrou, só em 2004,
8.000 crianças, de 10 a 15 anos, com obesidade infantil -23% do
total dessa faixa etária.
Um dos perigos apontados pelos especialistas é o de a cirurgia
afetar o processo de crescimento da criança, em razão da deficiência
de vitaminas e minerais que pode ser gerada. Também pode haver danos
psicológicos.
"Não se imagina isso em uma criança. Por isso nem é discutido entre
os pediatras. Dos 16 anos em diante, ainda é uma fase nebulosa. Só
uma análise multidisciplinar vai dizer se a cirurgia é realmente a
melhor solução", diz a pediatra Angela Spinola de Castro, professora
da Unifesp (Universidade Federal de SP) e membro do departamento de
endocrinologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Para o cirurgião Arthur Garrido Júnior, presidente da Federação
Internacional de Cirurgias de Obesidade e um dos primeiros a fazer
esse tipo de operação no Brasil, não há nada que contra-indique as
cirurgias de redução gástricas no público infanto-juvenil. "Mesmo em
fase de crescimento, a cirurgia não apresenta maiores riscos quando
feita dentro dos critérios e das indicações. O risco maior é a
criança continuar obesa e com outras doenças associadas." Garrido
afirma que só opera crianças a partir dos 14 anos.
O cirurgião Ricardo Cohen, membro da Sociedade Brasileira de
Cirurgia Laparoscópica (SBCL), diz que já operou um adolescente de
11 anos e outro de 12. "Essas crianças estavam doentes e precisavam
ser tratadas", diz.
Ele acrescenta que a indicação de cirurgia em crianças com menos de
17 anos só é feita após ao menos um ano e meio de tentativas
clínicas de emagrecimento -como reeducação alimentar e atividades
físicas- sem sucesso.
"Acho muito difícil ter se tentado tudo em uma criança na faixa
etária de 11 a 14 anos. Esse "tudo" pode ter sido tudo errado", diz
a médica Valéria Guimarães, conselheira da Sociedade Internacional
de Endocrinologia.
Newton Tokio Kawahara, cirurgião e sócio-fundador da SBCL, diz que
as cirurgias em adolescentes são indicadas nos casos de IMC (índice
de massa corpórea) maior que 40 e que tenham outro problema de saúde
associado, como diabetes, colesterol alto e hipertensão. "Estudos
americanos mostram que a pessoa com IMC superior a 40 tem a
expectativa de qualidade de vida piorada. Há cinco anos a indicação
cirúrgica era para pessoas de 18 até 60 anos, mas hoje não há mais
limites de idade e sim critérios clínicos."
Nem sempre a obesidade associada a fatores de risco é um passe livre
para a cirurgia. É fundamental analisar o grau de maturidade do
paciente, a capacidade de mudar o estilo de vida e o comportamento
da família, diz Garrido.
"A adolescência é uma fase de transição. Por isso avaliar a condição
psicológica da criança é muito importante", diz Kawahara.
O pós-operatório em adolescentes exige acompanhamento psicológico e
cuidados com a alimentação. O paciente perde até 40% do peso inicial
nos primeiros meses, até chegar ao equilíbrio. O risco de morte é de
0,5%.
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Cirurgia foi a melhor
decisão, diz jovem
Garota de 17 anos e 136 kg optou
por cirurgia de redução de estômago para recuperar auto-estima
Há pouco mais de três meses, a estudante Erian
Paula Rodrigues Silva, 17, era uma garota sem auto-estima. Sentia-se
rejeitada, tinha dificuldades de relacionamento e considerava-se
tímida demais. Tudo isso porque com 1,70 m pesava 136 quilos, mais
que o dobro do peso ideal para sua altura.
A obesidade mórbida, conta Erian, causou-lhe muitos constrangimentos
desde criança. "Existe muito preconceito contra os gordos. As
pessoas me olhavam esquisito, às vezes davam risadinhas irônicas e
eu me sentia muito mal", diz a adolescente, que fez a cirurgia de
redução de estômago há três meses.
Erian diz que sempre foi uma criança "comilona" e nunca teve hábitos
alimentares adequados. "Comia muita porcaria e beliscava o dia
inteiro. Era só pão, chocolate, refrigerante". Apesar de sua família
ter tendência a engordar, a adolescente não se deu conta do risco de
ficar obesa.
Para tentar controlar o peso, Erian chegou a fazer dietas rigorosas,
mas não conseguia emagrecer mais de três quilos por semana e voltava
a engordar. Cada vez mais pesada e sem sucesso nos regimes, Erian
decidiu fazer a cirurgia no estômago.
No início, a opção pela cirurgia não agradou a mãe da adolescente,
Elaine Rodrigues da Silva. "Eu achava a Erian muito nova para fazer
uma cirurgia dessas. Procuramos um endocrinologista e fui com ela ao
psicólogo para ter certeza de que a cirurgia seria a melhor
alternativa", diz Elaine.
Logo após a cirurgia, Erian teve de mudar todos os seus hábitos
alimentares e dizer adeus aos sanduíches, chocolates, refrigerantes
e guloseimas. A adolescente só podia ingerir líquidos. Ainda hoje,
três meses após a operação, ela precisa controlar a alimentação.
Pós-operatório
A adolescente admite que nas primeiras semanas teve indícios de
depressão. "Foi muito difícil. Eu sentia o cheiro da comida e ficava
com vontade, mas não podia comer. Muitas vezes eu comia antes da
minha mãe para não ficar com vontade. Mas, mesmo assim, essa foi a
melhor decisão da minha vida", diz a garota.
Erian chegou a usar manequim 56 e hoje usa 48. Hoje ela está com 100
quilos. Sua meta é chegar a pesar no máximo 70 quilos e usar
manequim 42.
O estudante Cristiano Hajjar,17, também diz que fazer a cirurgia foi
a melhor coisa para conseguir emagrecer. Com 1,80 m, chegou a pesar
150 quilos. Hoje, dois anos e meio após a operação, mantém-se com 85
quilos.
Cristiano contou que desde criança foi gordinho, que não tinha uma
alimentação saudável, mas que nunca teve nenhum outro problema de
saúde. "Eu tentei de tudo para emagrecer, mas não conseguia. Hoje
estou superbem", diz.
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Para pediatras, colesterol alto
não justifica prática
Especialista diz que não há como prever riscos em crianças
Colesterol alto e hiperinsulismo (pré-diabetes) em uma criança obesa
não são fatores de risco que justificariam uma cirurgia bariátrica,
avaliam pediatras e endocrinologistas ouvidos pela Folha.
Para Valéria Guimarães, endocrinologista, a cirurgia deveria ser o
último recurso, quando a criança já tenha passado por eventos
clínicos sérios, como uma angina ou infarto ou um problema grave na
coluna. "Colesterol ou diabetes não justificam a intervenção."
Ela diz ainda que os critérios desse tipo de cirurgia em crianças
deveriam ser mais rígidos do que em adultos. "Eles terão ainda 70
anos ou mais para viver."
A mesma opinião tem o endocrinologista Antônio Roberto Chacra, chefe
do Departamento de Endocrinologia da Unifesp. "Esse tipo de cirurgia
não deve ser feita em crianças que estão em fase de crescimento, em
especial até os 15 anos, quando o corpo ainda não está totalmente
formado e a puberdade ainda não terminou."
Na opinião de Chacra, por estar em fase de crescimento, o
adolescente consegue perder peso com orientação nutricional, prática
de esportes e mudança de hábitos. "Em último caso, é melhor optar
por medicamentos."
Guimarães também lembra ser preciso envolver toda a família nessa
mudança de hábitos. Do contrário, segundo ela, vão continuar
ocorrendo casos bizarros, como os que ela já atendeu.
"Há jovens que batem pizza, lasanha e até Big Mc no liquidificador",
conta. Ela afirma ter atendido uma adolescente de 17 anos que, após
um ano da cirurgia para a redução do estômago, voltou a ficar obesa.
"Ela descobriu que um tipo de salgadinho industrializado deslizava
no anel [usado na cirurgia]. Com isso, passava o dia todo comendo o
tal salgadinho."
Na avaliação da pediatra Angela Spinola de Castro, professora da
Unifesp, a alegação de que a cirurgia bariátrica é a alternativa
para quando os outros recursos forem esgotados pode camuflar um
certo comodismo da família e dos médicos. "A infância é plena de
recursos. Não entendo como um profissional pode dizer que os
recursos foram esgotados", diz.
Ela lembra que é preciso cuidado com as crianças e adolescentes que
apresentam compulsão alimentar. "Ela emagrece, mas não há garantia
de que não vá trocar a compulsão de comer por outras."
O endocrinologista Marcio Mancini, do Grupo de Obesidade e Doenças
Metabólicas do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital
das Clínicas de São Paulo, discorda de que seja preciso um evento
grave para que haja indicação da cirurgia bariátrica a crianças.
"Apnéia do sono ou diabetes são situações que mereceriam uma
intervenção mais drástica como forma de prevenção de uma ocorrência
mais grave. Mas devem ser casos selecionados."
Mancini diz que não operaria crianças abaixo de 14 anos, a não ser
em "casos extremos". Ele aconselha que sejam usadas técnicas menos
invasivas, como a banda gástrica. Realizada por videolaparoscopia
(por meio de pequenas incisões no abdome), a cirurgia consiste na
colocação de uma banda de silicone em volta do estômago, que limita
a quantidade de alimento que o órgão pode receber de cada vez.
"É uma cirurgia fácil de fazer, com risco de mortalidade quase zero,
que permite uma maior adaptação do paciente." Para ele, o maior
risco das cirurgias mais radicais é a desnutrição. "É difícil prever
as conseqüências porque estamos falando de uma criança em idade de
crescimento."
Mancini diz que, até o momento, tem observado mais benefícios do que
riscos nas cirurgias feitas sob indicação de grupos
multidisciplinares, que reúnem endocrinologistas, nutricionistas e
psiquiatras, por exemplo. (CLAUDIA COLLUCCI E
FERNANDA BASSETTE)
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Pais e filhos recorrem à
cirurgia
O primeiro foi o pai. O segundo, o filho do meio, aos 14 anos.
Depois, a mãe. Há um ano, o pai repetiu a dose e, em setembro
próximo, será a vez do filho mais velho. Há seis anos, a família
Ferreira, 500 kg, iniciou uma cruzada radical para perder peso.
Depois de anos tentando dietas e fórmulas emagrecedoras, um a um,
seus integrantes foram realizando cirurgias para a redução do
estômago. O administrador de empresas Carlos Henrique Ferreira, 48,
o pai, conseguiu perder 45 dos seus 150 kg no primeiro ano após a
cirurgia. Pouco tempo depois, já havia recuperado 30 kg.
"A cirurgia não deu certo, tanto que nem é feita mais", explica. Em
janeiro do ano passado, ele voltou a enfrentar o bisturi e perdeu
mais 25 kg. Hoje, está com 110 kg.
Ferreira admite, porém, que abusa na alimentação. "Continuo comendo
muito. Abuso no doce e nas comidas gordurosas. Graças a Deus não
tenho diabetes e nem colesterol. Só hipertensão", diz.
Ele atribui o excesso de peso "às delícias do casamento". "Quando
casei, tinha 82 kg e, minha mulher, 62 kg", lembra.
A artista plástica Regina, 51, sua mulher, chegou aos 102 kg há
quatro anos, quando fez a cirurgia bariátrica. Hoje, ela, que mede
1m62, está com 73 kg. "Sei que ainda estou acima do peso. Mas também
não gosto daquela aparência "chupada", doente."
Tanto Regina quanto Carlos Eduardo contam que a decisão de permitir
a cirurgia no filho Thiago, que aos 14 anos pesava 140 kg, foi
difícil. "Tínhamos medo dos riscos, mas era difícil vê-lo isolado do
mundo, com vergonha da sua gordura", conta a mãe.
"Ter um filho obeso é a mesma coisa de ter um com deficiência
mental. O preconceito que sofremos é o mesmo", acrescenta.
Hoje, aos 18 anos e pesando 82 kg, Thiago cursa faculdade de
engenharia, namora e não sai das boates e dos barzinhos da moda.
"Renasci", resume ele. |
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Documento orienta pediatras
Em razão da epidemia de obesidade infantil que assola o mundo,
médicos de nove países europeus publicaram no ano passado um
consenso sobre obesidade infantil para orientar pediatras e
endocrinologistas no tratamento desses casos na infância e
adolescência.
Estudos mostram que a Irlanda, a Grécia e Portugal reúnem o maior
índice de obesos infanto-juvenis. Assim como no resto do mundo, o
sedentarismo e o consumo de alimentos gordurosos são as principais
causas.
A ênfase do consenso é dada na prevenção da obesidade infantil. A
idéia é que os pediatras estejam atentos ao ganho de peso das
crianças e adotem procedimentos (dietas e exercícios) antes que seja
tarde demais.
O documento alerta para os riscos da obesidade -como diabetes,
síndrome metabólica, doenças cardiovasculares, respiratórias e
ortopédicas- e é cauteloso sobre a indicação de medicamentos e
cirurgias bariátricas.
"Longos testes clínicos, com um grande número de crianças e
adolescentes devem ser requeridos antes que tratamentos com remédios
ou intervenções cirúrgicas sejam empregadas", diz um trecho do
consenso.
As cirurgias bariátricas são contra-indicadas para crianças e para
adolescentes obesos que façam uso de drogas ou que apresentem
distúrbios psiquiátricos, inclusive compulsão alimentar.
Nos EUA, não há uma idade limite para a realização das cirurgias de
redução do volume gástrico, mas, segundo a Sociedade Americana de
Cirurgia Bariátrica, a maioria dos cirurgiões são relutantes em
operar crianças que não finalizaram a fase de crescimento em razão
dos aspectos nutricionais (má-nutrição por falta de vitamina e sais
minerais).
A sociedade informa que a maioria dos médicos prefere operar
adolescentes próximos à idade adulta, que sejam capazes de mudar seu
estilo de vida.
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Link Original da
Noticia:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0105200501.htm |
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